segunda-feira, 27 de junho de 2011

A VIDA POR ELA MESMA


Muitos críticos deitaram a lenha em Woody Allen pelo seu filme “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Uns disseram que ele se repete; outros que ele deveria se aposentar; mais alguns que sua carreira acabou ao final dos anos 1990.

Allen não se repete, reconta o que assistimos todos os dias nesse cotidiano curioso que é viver. O repetido são os acasos, esse tal de destino, as coincidências, semelhanças, os seres humanos e seus valores e defeitos. O que repete é a morte.

A narrativa de Woody é uma crônica de seu próprio costume de ironizar todas as ansiedades e ambições humanas. É uma crônica de sua própria convicção de que ao fazer filmes está brincando com alguém e que há um outro alguém – ou uma outra coisa – brincando com os dois.

O cineasta e roteirista não se  repete. O que repete é a sua necessidade de encontrar sentido para aquilo que ele percebe que não tem sentido, a vida , a partir do sentido que as pessoas querem dar para ela: sou eterno, então vou pegar tudo o que quero, depois vou amar os que me amam.

Allen transforma o dia a dia num festival de sortilégios ,sucessos e derrotas casuais. Com o talento de quem não se dá importância, ele produz filmes como as cartomantes lêem  a sorte de quem as consulta.
Temos 50% a nosso favor, 50% contra, enquanto vivos. A morte tem 100%. Allen só reforça essa certeza. E avisa que devemos aproveitar os 50% que são por nós.

*a foto de ilustração está em www.adorocinema.com

segunda-feira, 20 de junho de 2011

MEU PRIMOGÊNITO


Terça-feira, 30 de novembro. Ontem, dentro do ônibus conversava sobre crianças pequenas internadas e comentei com minha interlocutora sobre meu filho mais velho.

Ao chegar de viagem, a mãe dele me disse que o mesmo estava internado. Fomos ao hospital e lá, na enfermaria infantil, entre tantas caminhas, a dele. Deitado, bracinhos amarrados por causa do soro, o meu primogênito, o herdeiro, o presente divino.

Sem um plano de saúde naquela época, com pouca responsabilidade para muitas coisas na vida(ainda sou irresponsável com muitas delas), vi meu filho no meio de tantos filhos, todos sem a proteção dos pais, ainda que assistidos por enfermeiros e médicos.Na despedida, meu menino, sentado na cama, com os braços abertos e atados às grades do leito, chorava e dizia “papai”, “mamãe”.

Terça-feira, 30 de novembro. Mais uma vez, na minha ignorância e brutalidade, maltratei alguém, voltei para minha toca de ogro velho e irrecuperável. E entre um suspiro e outro de tristeza, arrependimento e solidão; entre a incapacidade de compreender as intenções dos outros e as minhas, toca o telefone celular: é o meu primogênito, agora com 34 anos.

A voz é alegre, não tem choro, não tem braços amarrados. Pergunta como vão as coisas, diz que com ele vai tudo bem e completa: “tenho uma notícia ótima para lhe dar”.Meu primogênito vai ser pai. Sem braços atados, sem choros e desamparo, ele, entusiasmado, repete que “é o herdeiro, é o herdeiro”.

Preparado para ser avô pela terceira vez, procuro dar orientações práticas, demonstrar que estou no controle da situação como se o filho fosse meu. Mas de certa forma é.Perguntas sobre como está a mãe, recomendações sobre pré-natal e plano de saúde.Planos de saúde são um mal necessário neste país onde a saúde pública é discurso, demagogia e assistencialismo. Eu digo que gosto do meu. Meu filho fala sobre um outro.O importante é que eles, meu filho, a minha nora e o meu (minha) neto(a) tenham tranquilidade também nesse quesito.

Agora, passada a emoção, qualquer que seja o plano de saúde escolhido será preciso que a escolha se oriente pelo amor. É preciso um plano de amor. Um amor que talvez me tenha faltado quando o meu primogênito ficou amarrado à cama, num final de semana, na enfermaria de um hospital.
Um amor que agora me sobra para não permitir que isso nunca mais aconteça.

Obrigado, meu heroi!

A ilustração está em www.bumsteadsbook.blogspot.com

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