segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PERCEPÇÕES


AR.és


PASSARINHOS


ZOO


NATURALMENTE


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

LOURENÇO


ANEFF


ADENOR


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

AMORES




Diz a letra da música que alguém sabe que vai amar a outra por toda a sua vida. Existem amores que serão eternos enquanto durar os amantes. E amantes eternamente amados durante a vigência do amor. Amar é perigoso e arriscado mas é o melhor lactobacilo ‘vivo’ do corpo e da alma.

Tem amores urgentes, tão urgentes que nem se percebe o parceiro, nem os parceiros se encontram. Você sacode a embalagem tetrapack  e consome tudo em até três dias para não perder a validade.

Há os amores burocráticos, agendados com dias de antecedência e com uma ritualística mais para reunião de acionistas do que para uma cama com lençol de linho. Algo assim “vamos ao que interessa pois tenho muita coisa para fazer”. De pois de ‘amar’ , risca-se a atividade ou escreve-se ‘ok’ na agenda.

Amor de lesma é outro tipo. Muita contorção, esforço para se descobrir que avançou pouco. Melhor , que é tão sinuoso que desgasta, consome a energia de modo a cansar os moluscos gastrópodes ao final de uma jornada.

Os amores comuns, aqueles de declarações afetuosas, do ombro amigo, da cumplicidade, da mão na mão, dos passeios no final da tarde, do sono de ‘conchinha’, do café da manhã com fruta e música e olhos inchados de uma felicidade em andamento, de risos, de dormir até mais tarde, ah, estes amores parecem caricatura em tempos de “vai ser bom, não foi”?

Todas as vezes que eu vejo aquelas ‘mocinhas de gesso’ debruçadas nas janelas ou nas varandas, escorando o ‘rosto’ com as mãos, eu me pergunto quantos corações de gesso circulam pelas ruas loucos por voltar às suas ‘janelas’ e ‘ varandas’ e continuar assistindo a vida passar.

A vida que vai passando por entre as mãos que não se tocam, por entre os olhos que não se olham, por entre as bocas que não se encontram, pelas palavras que não ditas, pela esperança que não se confessa, pelo sonho que não se sonha.

Com certeza, isto não quer dizer amor.

O CÉU



O menino apanha a folha de papel em branco.Coloca sobre a mesa junto com a sua caixa de lápis coloridos. Escora a cabeça com a mão esquerda, encosta o lápis de cor azul nos lábios e pensa.

- Tá pensando?

A criança pensa em desenhar um lindo céu azul. Só o céu.

- Não tem uns passarinhos?

Não, não tem passarinhos. Os passarinhos estão num outro céu que ele desenhou outro dia.

- Céu não precisa de nuvens para a gente saber que é céu?

Céu, cada um tem o seu dentro do peito. Com nuvens ou sem elas.Nuvens são as estopas que os anjos usam para limpar as sujeiras do céu da gente. Tem céu que está tão sujo que é preciso lavar. Daí que a chuva é a água das estopas espremidas lá em cima.

- E você vai desenhar um céu desse tamanho?

O tamanho do céu do pequeno desenhista não cabe numa folha de papel.É maior que o tamanho do céu que seus olhinhos podem medir. Naquela folha vai desenhar só um pedacinho. Um pedacinho do céu, se a gente deixa entrar na nossa vida, é muito melhor que qualquer remédio.Tem paz,tem esperança,tem sonho.Deitar, então, num pedacinho desse azul derramado, deixa a pessoa molezinha e toda suspiros.

- Esse céu que você vai desenhar tem um motivo especial?

Motivo? É preciso que tudo tenha um motivo, que tudo seja explicável, explicado? Que as coisas só valem se as apresentarmos aos outros como, sei lá, um plano de uso, um manual de instruções e com um abaixo-assinado com milhões de assinaturas aprovando o que estamos ou vamos fazer?

- O que tem dentro dessa cabecinha que deixa você tão pensativo?

Ah, tem tanto,tanto de desejos,angústias,expectativas, sonhos, perguntas esperando respostas e respostas esperando perguntas.

- Não vai me contar ?

O menino rapidamente põe na folha de papel o céu pedaço de azul. Diz que está pronto. E responde que desenhou aquilo por causa do amor. Para que o amor dele  possa ir e vir naquele pedaço de céu.

- Amor?! Meu Deus, mas você é muito romântico, é um poeta!

Pronto, enquadraram o artista.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

AS DISTORÇÕES



Leio em http://br.noticias.yahoo.com/telesc%C3%B3pio-hubble-capta-gal%C3%A1xia-brilhante-descoberta-agora-211604374.html que “ o telescópio espacial Hubble obteve imagens sem precedentes da galáxia mais brilhante descoberta até agora, graças a um fenômeno conhecido como lente gravitacional”. Lente gravitacional?

A resposta vem a seguir: “Uma lente gravitacional ocorre quando a gravidade de um objeto gigantesco, como o Sol, um buraco negro ou um conjunto de galáxias, causa uma distorção no espaço-tempo. A luz procedente de objetos mais distantes e brilhantes se reflete e aumenta quando passa por essa região distorcida pela gravidade”. E daí?

Daí que, segundo a NASA, “esta observação proporciona uma oportunidade única para o estudo das propriedades físicas de uma galáxia que formava, de maneira vigorosa, estrelas quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual”.

Ainda, de acordo com a notícia “a vista que o Hubble obteve da galáxia distante é muito mais detalhada que a imagem que seria obtida sem a presença da lente gravitacional. A presença deste “amplificador” mostra como as galáxias evoluíram em dez mil milhões de anos, segundo a Nasa.Enquanto as galáxias mais próximas à Terra estão plenamente maduras e se aproximam do fim de sua história como criadouro de estrelas, as galáxias mais distantes proporcionam testemunho dos tempos de formação do universo.Estão tão distantes que a luz daqueles eventos cósmicos só alcança a Terra agora. As galáxias mais distantes não só brilham mais tênues no espaço, como também aparecem muito menores”.

Para mim, neste período de tempestades e explosões solares gigantescas, quanto mais o Hubble “vê,descobre ou confirma”, mais eu me sinto ‘escondido, inédito e incerto’. Pior: se não consigo conter as minhas distorções diárias com as quais reajo diante das intempéries(sem trocadilho) que nublam meus céus de brigadeiro ou não mudo a atitude distorcida com a qual as pessoas interpretam/ironizam minha maneira de ser, agir, pensar e sonhar, como é que eu vou conseguir entender o que são “dez milhões de anos” ou “quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual” ?

Pois se basta, por exemplo, o amor amado se afastar algumas poucas centenas de quilômetros para que as explosões do Sol sejam fichinha diante do caos e da confusão e da desorientação que se instala aqui dentro do peito e eu ficar mais perdido do que cachorro dentro do caminhão de mudança. É, dentro, escapando do armário que tomba para um lado, da geladeira que deriva, do colchão que não consegue conter o desespero de suas molas e da insanidade do motorista que só consegue parar o veículo na base do freio do motor e na ‘caixa’.

A gente navega pelo espaço das estrelas, dos bites e dos suspiros. Olhamos para cima mas não podemos afirmar que ‘lá’ é o ‘ em cima’. Afinal de contas podemos estar de ‘cabeça para baixo’ dentro desta gelatina de anis. Olhamos para os olhos do outro e não podemos garantir mais do que a felicidade deste instante. Isto quando o que queremos é a felicidade.

Entre tantas lentes e tantos lentes, nós,distorcidos ou num foco fugaz, costumamos acreditar nos nossos ‘instantes de galáxia’. No enquadramento da Ciência, milhões. No visor da Vida, milionésimos.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

NOSSOS SENTIMENTOS



No conto “ O gato preto” , de Edgar Allan Poe, num certo momento o narrador  diz: “(…)E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe a minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que nãodevia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei , simplesmente porque a compreendemos como tal?(…)O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma , de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira…(…)”.

Sem a pretensão de contrariar o narrador, recordo das ideias de Aristóteles sobre  energeia e dynamis .A primeira é o “ato”, diz respeito ao estado natural do ser, seu existir aqui e agora. A segunda, a “potência”, sinaliza o que esse ser pode ser sem deixar de sê-lo. Bernardette Siqueira Abrão, em “História da Filosofia”(Ed.Nova Cultural) exemplifica: “ A semente de uma árvore, enquanto ato, é semente, mas como potência é a árvore que dela vai germinar. As mudanças e o movimento são o modo como as potencialidades do ser vão se atualizando, passando da potência ao ato”.

Aonde eu quero chegar com isto! Aqui mesmo, onde estamos todos. Neste território ínfimo que transita aí pelo Universo. Nesta arena para a qual somos conduzidos ou nos conduzimos(por bem ou à força) e na qual vamos experienciando as mudanças de ato em potência em ato em potência, ad infinitum .
Perversidade quer dizer maldade, malignidade, ruindade. É o mesmo que barbaridade, atrocidade, crueldade, improbidade, truculência. É fazer doer no outro, consciente da proporção dessa dor. Só no outro?

A perversidade não está apenas na atitude insana e complexa. Está num simples não ou sim. Ao ser utilizada contra alguém já terá sido também eficaz contra quem a usa. E quando se toma um gostinho pela coisa…

Nos assustamos com os acontecimentos bárbaros que todo dia ouvimos ou vemos ou lemos. Não conseguimos, num instante de reflexão, compreendermos como somos capazes de cometer tamanhos desatinos. Mas nos esquecemos de que ao nosso lado uma pessoa esperava o nosso incentivo e nós fomos indiferentes ou o negamos. Quantos sonhos nós desmanchamos, quantos desejos nós proibimos , quantos gritos de liberdade nós calamos, quantas iniquidades nós incentivamos?

Daí que “o homem está condenado a ser livre”. Condenado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

“QUE A EMOÇÃO SOBREVIVA”



Na ilha de edição, convivendo com uma angústia particular – um desses redemoinhos sentimentais que rondam ao redor de nós e que costumam ser arrasadores.Procuro afastar dúvidas e preocupações pesquisando vídeos novos postados em sítios específicos.

Na ‘máquina’ lá no canto, o editor coloca  no render um trabalho que estamos finalizando. Enquanto o processo não termina, ele quer saber “qual é o próximo,velhinho”?

Na troca de ideias, decidimos, dos que estão na lista, pelo mais “urgente”. O primeiro passo é definir a trilha sonora.

Enquanto o editor abre a pasta com as trilhas arquivadas, eu volto para a pesquisa de vídeos. Escolho um pelo título e pela imagem de ilustração. Não sei por quais cargas d’água – talvez as da chuva que resolveu cair na tarde de ontemem Belo Horizonte– pedi ao meu parceiro que ‘rodasse a trilha’ que ele escolhera. 

No instante em que ele fez isto, deixei o vídeo ‘rodar’ sem o seu som original.A trilha tocando lá,o vídeo rodando aqui pareciam ter sido feitos um para o outro. Impressionante, ainda que não seja a primeira vez. Nem a última. A medida que prosseguia a ‘feliz’ coincidência, o garoto – é , o editor tem 25 anos – virou o rosto para a parede e chorou.

Que a emoção sobreviva!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

PESCARIAS



Samuel, meu neto mais velho, pescou dois peixes. Quem me dá a notícia é a mãe dele, pelo celular. Agora ela precisa cumprir a promessa de enviar as fotografias que comprovam o grande acontecimento. Ele ainda não é um Vitor Galery, um tio João, um Tio Celso, um João Arantes, um Alcides(o Pimpão). Mas está no caminho.

Daqui a pouco o menino saberá apreciar a coreografia das águas, entenderá as artimanhas dos peixes, ouvirá seu coração em dueto com o vento e conseguirá as melhores iscas nas terras da liberdade.
Um menino inicia seus rituais da infância pela cerimônia dos peixes. Um milagre que multiplica esperanças, que alimenta essa deliciosa incerteza que é viver. Samuel começa a ler as partituras das margens.

Quero ver as fotografias. Não para confirmar se é verdade. Dizem que pescador costuma ser mentiroso. Mas entre as mentiras do mundo ‘normal’ são as melhores coisas de se ouvir. E de acreditar.
Quero as fotos para ver o olhar do meu neto. E através do seu olhar me reencontrar criança ingênua dos sinuosos significados da vida.

domingo, 12 de agosto de 2012

NAS MÃOS



Domingo de sol, céu azul, almoço de frango e macarrão, ou de churrasco, ou de restaurante ou de boca livre na casa de parente ou de amigos, ou sozinho mesmo. Assim seja!

Pois vai pelo domingo, num carrinho, um casal. Não significa que exista uma relação afetiva, familiar ou de amizade entre os dois. Mas vamos tomar o viés romântico para amenizar os impactos da segunda-feira e – entre outras coisas – os pênaltis perdidos na Copa América.

De dentro do ônibus, eu vejo um casal em trajes de quem vai para um encontro mais informal. Casual básico, eu acho que assim que chamam o figurino dos dois. Camiseta, bermuda , tênis e sandália. A moça leva nas mãos, quase na altura do queixo, uma forma de vidro – que no meu tempo a gente chamava de “pirex” e que não tinha nada a ver com “pirado”- contendo, penso eu, um pudim, um manjar. Pode ser , ao contrário, um suflê, um gratinado ao molho branco.

A moça transporta a vasilha com tamanho cuidado que seus bracinhos magros se transformam nos mais poderosos e seguros amortecedores do planeta. Muito mais eficazes que os dos aviões, caminhões e modernos automóveis. Evidente que o motorista dirige com certo cuidado para não exigir um esforço maior daquele par de amortecedores de carne e osso.

A estabilidade da iguaria é uma questão de vida ou morte. Me lembro de que minha mãe comentava sobre certas comidas que não podiam “ tremer” – ou algo parecido – senão “desandavam”, “perdiam o ponto”.  Não sei se este é o caso da comida que a moça branquinha transporta quase rente  aos olhos.

Mais do que um acepipe principesco, como diz Mário de Alencar no seu “Alguns Escritos”, a moça carrega o destino do seu domingo. E, por tabela, o destino do domingo daquele que dirige o automóvel. Se o prato não entornar, chegar intacto ao seu destino, o domingo, parece, será comemorado com alegria e, cá entre nós, com uma pontinha de vaidade. Quem não quer elogios sobre seus dotes culinários. O companheiro dela, aproveitando a carona na festa, vai dizer que veio dirigindo com todo o cuidado. E ela, como toda mulher que se preza, vai retrucar: “Aí dele se derramasse um pouquinho”!

Se derramar, o domingo – e o colo, as pernas, a bermuda, as sandálias, os pés, o piso do carro vão se banhar daquela coisa branca que perderá sua condição de ‘principesca’ para se transformar numa meleca adocicada ou gordurenta. E vai sobrar para o motorista. Que vai retrucar. E ela vai devolver. Se não parar por aí, vão se digladiar com molho – ou creme – e pedaços de vidro. Vão ficar “pirex”, os dois.
O carro adianta-se. Entra na via preferencial do destino dele e de seus ocupantes. Eu, com meu destino, dentro do destino do ônibus e dos demais ocupantes, daqui a pouco esquentarei um molho e comerei com um espaguete cozido na véspera. Com direito a um copo de suco de uva e um pedaço de chocolate de sobremesa.

Cada um carrega nas mãos o prato do dia de sua vida. Num banquete, agendado por um anfitrião ao qual não somos apresentados, encontraremos outras pessoas, cada uma com seu prato especial. Nos reuniremos e a ceia deverá ser repleta de alegria e cumplicidade.

Banquetes mais particulares, aqueles em que eu levo o meu prato e você leva o seu e nos encontramos em um lugar previamente marcado, são mais complexos, mesmo  com o número reduzido de convidados. Talvez pelo fato de que tememos que derrame alguma coisa e o outro perceba. Que o paladar do outro ‘estranhe’. Ou rejeite mas finja satisfação. Que os elogios não venham na mesma proporção que acreditamos mereça o que oferecemos. Ou então, o que parece pior, o outro resolve mudar seu destino e a gente come apenas o que trouxemos.

E descobrimos que não tem o mesmo gosto. Que o tempero do outro faz  muita falta.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

AS CAVERNAS




As relações entre nós , estas que acontecem quando saímos da ‘toca’ e vamos para o campo aberto, estão cada vez mais áridas, mais ‘espinhentas’ e indiferentes.Vou deixar a convivência dentro da ‘caverna’ para um outro dia.

Hoje, dependendo da situação – ou em quase todas – parece um ‘micão’ desejar um bom dia, uma boa tarde, uma boa noite. O mesmo acontece se agradecemos, se elogiamos, se externamos nossos votos de sucesso, boa sorte e felicidade. “Tá tudo dominado, veio”!

Gestos carinhosos, atitudes de proteção e ajuda, declarações de amizade, um abraço reconfortante, um sorriso de esperança estão mais para a literatura do que para a alegria de dividir as caminhadas semelhantes.

Dizer que ama, que alguém é bonito, lindo,maravilhoso. Comentar da roupa, do cabelo, do batom, do sapato ou o carro novo  se não for interpretado como assédio sexual o será como assédio material. O negócio é ‘a pegada’ .

Agora, experimente mandar o dito para a pqp, para a “K’s house”. Tire satisfações, pergunte a razão da cara amarrada, do sentimento de que tudo é uma m….., da má vontade em fazer, em responder,em auxiliar.

Você vai descobrir que “tá tudo dominado, véio”. Dominado por uma beligerância prestes a explodir. Tem gente – e a gente também – que somos bombas armadas para detonar ao menor ruído, ao mais insignificante atrito.

É, a vida no campo aberto está cada vez mais minada por nós que damos uma fugidinha das nossas ‘catacumbas’ só para ir lá fora dar e tomar porrada. Depois a gente volta, comenta como batemos e amenizamos o quanto apanhamos. Costuma até rolar uma pancadaria dentro das ‘gaiolinhas’. Como estamos todos acostumados, até é bom para abrir o apetite.

terça-feira, 26 de junho de 2012

AZUIS


ACRE(4)


ACRE(3)


ACRE(2)


ACRE(1)


ACRE


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A DOR DO OUTRO


A DOR DO OUTRO 

Nada pior do que ter ao lado alguém chorando de dor e não poder fazer nada. A gente leva um copo com água, um analgésico, palavras de carinho, um abraço afetuoso como se quiséssemos que aquela dor abandonasse o corpo dele e se alojasse em nós.

A gente reza, se católicos. A gente ora, se evangélicos. A gente pede, se humanos. A gente não sabe sofrer o sofrimento do próximo. Nem do distante. Mas que dói, dói.

A dor revela sua capacidade de desvirtuar todos os sentidos. Interfere na Natureza prolongando a noite, escurecendo o dia, afugentando as palavras, incinerando a Medicina, ridicularizando remédios, feiticeiros e feitiços. A dor manda na gente. A dor manda a gente para as profundezas pantanosas da insignificância.

Enquanto o outro, tão querido e amado, sofre, a gente insiste em dizer que vai passar. Mas nenhuma dor passa.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

DESCOBRIMENTOS


DESCOBRIMENTOS 

 Pelas minhas contas a mocinha e mamãe parou de estudar há sete, oito anos. Neste período, adoeceu gravemente, recuperou-se maravilhosamente, engravidou, é mãe, passou por duas experiências afetivas e, atualmente, trabalha perto de casa.

Tantas vezes ela reafirmou que não queria saber mais de sala de aula, escola. Queria roça, interior, sítio, galinha pra tratar. Como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” -  ou acaba – ela resolveu que precisava dar “um gás” na “mesma lerda vida”.
Inscrição para vestibular, cursinho intensivo no final de semana.

Sábado, de noite, ligo para ter notícias, saber como é que foi. Assim como quem não quer nada(mas que torcia para que ela estivesse feliz e satisfeita). Então a menina e mãe respondeu que estava chocada. “Como é que a gente deixa a vida passar assim”, ela me perguntou e, de imediato eu pensei no que estou fazendo com a vida.

Espantada e muito feliz, ela dizia que é um absurdo a gente se contentar só em comer,beber,dormir e trabalhar. Em viver o básico, basicamente. Na sala de aula, lotada com mais de cem pessoas, ela disse que redescobriu um mundo dinâmico, vivo, efervescente e instigante.

A menina e mãe estava de volta ao presente. Redescobrindo sua própria dinâmica, sua efervescência. Ela retoma “a boa nova” de si mesma.

domingo, 27 de maio de 2012

ACRE


ACRE


ACRE


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Peixes


sábado, 12 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

SINAIS


SINAIS 

Ele chega em casa e, ao abrir a porta e entrar, tropeça num par de tênis. Sobre a mesa, uma sacola com lenços umedecidos “suave fragrância”.

Dia puxado, muitas pendências exigindo soluções rápidas. O dia de amanhã vai obrigá-lo a levantar muito cedo. Por isso, empurra o par de tênis e as meias para debaixo da mesa e deixa os lenços umedecidos no mesmo lugar.

No quarto onde guarda  suas roupas, outro par de tênis no chão, mas sem meias. Uma camiseta sobre a mesa, a gaveta do armário aberta  com peças de roupas enfiadas à força querendo ‘fugir’.

Nada disso o incomoda. Ele respira fundo, senta-se à mesa, come um sanduíche. E ri.Afinal de contas, a responsável por aquela confusão vai voltar. Nem que seja para pegar suas coisas e deixar outras. E estes sinais da presença dela fazem muito bem para ele.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

FRAGMENTOS 4



Registrei o nome e olhar daquela menina dentro da minha vida. Ela era maior do que a tela do cine Estrela pois que eu via através de seus olhos um mundo que eu nunca imaginei que existia. Desandei a pastorear o meu amor sempre para perto dela. Se fosse o caso até aprenderia a costurar.
-         O Japão fica longe?
-         Fica. Meu pai diz que quando é dia aqui, é noite lá. Então deve ficar muito longe mesmo!
-         Eu já ouvi contar que se a gente furar um buraco em linha reta e atravessar a barriga da Terra, a gente chega ao Japão!
-         Acho que não…
-         Por que ?!
-         Ora, a Terra não roda em volta dela mesma ?!
-         Roda ?!
-         Claro que roda! Você não aprendeu na escola?!
-         É que no dia que a Dona Albertina deu essa aula, eu tava com dor de barriga e minha mãe mandou um bilhete pra ela avisando…
-         Ah…
-         Mas o que é que tem a Terra rodar? É só ir fazendo o furo no rumo da rodada dela!
-         Tá! Mas onde fica a barriga da Terra?!
-         Uai, um pouco pra baixo do coração dela, né!
-         É?! Então, tá! Me aponta o coração da Terra…
Eu peguei um pedaço de pau e risquei um círculo em volta dela.
-         Fica aqui! Encosta o ouvido e escuta…
Ela deitou o ouvido dentro do círculo. Eu também. Sussurrando, ela perguntou como eu podia saber que o coração da Terra estava ali.
-         Se eu fosse a Terra, eu deixava você pisar no meu coração.
Em silêncio, desenhamos carinhos dentro daquele círculo enquanto um outro, do qual a gente jamais teria idéia do tamanho, rodava em volta de si mesmo. Em silêncio, ouvíamos a vida vivendo dentro do mundo.

(Do livro ” A menina de olhinhos rasgados – Ed. Dimensão)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O OUTRO


O OUTRO 

Não devemos obrigar as pessoas a adotarem um modelo, um padrão de vida e de comportamento pessoal e profissional. Não somos donos da verdade para afirmarmos que “isto é melhor para você”.

Destino, sorte, objetivo, estrada, fé cada um tem o seu ou adquire durante a vida. Ou não. O máximo que podemos fazer é contribuir para a felicidade alheia ( estando nós também felizes). Se não for assim com você, por favor agradeço sua contribuição mas vou ser feliz a minha maneira.

O Odair José canta que “felicidade não existe, o que existe são momentos felizes”. Quanto mais momentos, então, mais felicidade. Deixar o outro falar, poder falar ao outro, dividir perspectivas, buscar e encontrar respostas e soluções, ser livre e ver sua liberdade respeitada são itens nessa lista odairiana de “momentos felizes”.

Claro, a gente quer o melhor para os que estão mais pertos de nós. E, espero, mesmo que em menor proporção, para os não tão próximos também. Mas a melhor proximidade talvez seja a demarcação da distância entre a nossa vida e a vida alheia. Dessa forma temos uma chance de aprender a hora de ofertar a mão, de acelerar o passo ou de acenar para aquele que , num determinado momento, com a nossa cooperação, escolheu outra estrada e outros viajantes para dividir a aventura.

sábado, 21 de abril de 2012

KANE


KANE *

Orson Welles foi um cidadão disposto ao risco e talentoso para enfrentá-lo. Talvez até arrogante por causa de sua transbordante criatividade. Contudo, pagou caro por isso.

Desde a transmissão de uma adaptação de “A guerra dos mundos” de H.G.Wells, em outubro de 1938, pela rádio Columbia Broadcasting System , que provocou pânico entre os ouvintes( http://www.classicosdaradio.com/WarWorld_inicio.htm ), Welles apostou em uma linguagem mais agressiva, inconformada para o texto, a interpretação e a narrativa cinematográfica. Daí, a sua grande obra, “Cidadão Kane” cuja pré-estreia aconteceu em Nova York em 1º. de Maio de 1941.

É uma aula de interpretação, direção, roteiro, fotografia e exemplo da potencialidade do cinema – e dele – em contar histórias. Orson consegue utilizar quase que à exaustão recursos já comuns ao cinema como flashbacks, câmera baixa, entre outros. A questão é que esse uso se faz com uma qualidade e dramaticidade impressionantes.

Como a história se aproximava muito da história real de um magnata das comunicações, William Randolph Hearst, o filme teve dificuldades de toda ordem, principalmente de divulgação, devido às pressões de Hearst. Como o contrato de Welles com a RKO não permitia que a empresa alterasse o filme, o filme não pode ser modificado pelo poder econômico do magnata.Mas , dizem os conspiradores de plantão, Orson passou a ter problemas com todas as suas produções seguintes.

“Cidadão Kane”, independente de ser considerado um dos “melhores filmes de todos os tempos” – existem listas que o incluem entre os dez mais importantes – é um filme sobre poder,dinheiro e solidão. Os moderninhos podem classificá-lo de “retrô”. Os lúcidos, de soco no estômago.

A ilustração está em www. alana.org.br

segunda-feira, 16 de abril de 2012

POR FALAR NISTO

POR FALAR NISTO 

Que toda a ruptura reúna;
Que toda a sutura aproxime;
Que toda a lágrima alimente;
Que toda a discórdia dissolva;
Que todo o sorriso resolva;
Que cada aceno confirme;
Que um sim compreenda o não;
Que todos os olhares sejam cúmplices;
Que o calendário seja chamado paixão;
Que as horas palpitem;
Que os relógios contem as vontades;
Que a tua mão encontre o amparo;
Que as nossas preces não pereçam;
Que todos os idiomas tornem-se um só diálogo;
Que a poesia seja tão importante quanto a matemática;
Que somar seja sinônimo de repartir;
Que tua palavra seja o pão;
Que o coração seja o suprimento;
Que todo dicionário se traduza na palavra;
Que a palavra seja atitude;
E que todo ato seja de amor.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O CONQUISTADOR


Tarde de sábado. Ônibus atravessando a cidade. Entra um casal. Ela vem na frente, escolhe sentar na cadeira atrás da minha. Ele vem depois. Camisa preta de manga comprida, air bag proeminente abrindo frestas entre os botões. Cabelos grisalhos, pele queimada de sol.

Ela conversa alguma coisa ao celular, confirma um encontro com uma pessoa no centro da cidade. E lá vai o “ônibus pela estrada em baixo do céu” como canta Caetano.

Aí o diálogo do casal salta para questões pessoais. O homem insiste num relacionamento, a mulher diz que não está preparada, acabou de sair de um. Pelo jeito não foi uma relação inesquecível. Ele quer saber se ela não gosta dele, não está a fim. A donzela esquiva daqui, encolhe dali, jura que não é isso e insiste no despreparo para um novo namoro assim, digamos, de repente. Quer arranjar um emprego logo, voltar a trabalhar.

Então as regras começam a ser delineadas. O grisalho e barrigudo afirma que se ela ficar com ele não tem esse negócio de trabalhar fora. Com ele, lugar de mulher é dentro de casa. A coitada não retruca.
Silêncio curto, o parceiro pula para a linha debaixo e divide o bate-papo de alcova com todos os passageiros. Já que é transporte coletivo, vamos coletivizar a conversação. Quer saber se ela não quer viver com ele. A mulher responde que ele é gente boa. Mas para um relacionamento sério…

Truco! O cidadão explica que ela não pode afirmar nada a respeito dele. “Você diz que gosta de uma fruta sem experimentar?” A senhora ao meu lado me olha. A sensação é de que temos a mesma opinião. Só que o conquistador não está disposto a ouvir nossos pontos de vista . Insiste que sem experimentar não se pode opinar.

A dama não se dispõe a experimentar a tal fruta que lhe é oferecida – talvez lembrando aquela célebre história da maçã – e cair na arapuca feito sanhaço novo. Magoado pela recusa do acepipe amoroso, o homem entende que o melhor será terminar um namoro que mal começou. A companheira desconversa, comenta o tamanho da rodoviária, pergunta se a cidade tem aeroporto – ele responde que são dois não sei se pensando no da Pampulha e no do Carlos Prates ou excluindo o segundo e se referindo a Confins – , confessa que acha bonito a decolagem e o pouso das aeronaves, inquire se ele gosta de ver aviões
Ponto de descida se aproximando e ele, antes dela, desce das nuvens e conclui que é melhor, então, os dois se despedirem antes de descer. Pelo reflexo do vidro – me desculpem a indiscrição – assisto o don juan tentar beijar a virgem do lotação. Esta , em nome dos bons costumes e do amor verdadeiro – aquele da chama que acende a vida da gente – se nega a ceder os lábios, ou o rosto, ou o queixo ou o pescoço ao ávido apaixonado. Este acaba beijando o ombro da mulher que, por falta de mais espaço, não teve como recolher.

Depois fica tudo por conta da tarde.

sábado, 7 de abril de 2012

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA


Ético é aquele que , através de suas atitudes, propicia o bem do próximo, da comunidade, do mundo para não perder o romance. Me preocupa muito os juízes de plantão, os mestres do templo, os doutores da lei, os arautos do politicamente correto que aproveitam dos erros de outrem para lançar mão de sentenças apocalípticas e mandar todo mundo para a fogueira.

Primeiro, somos todos bárbaros, completamente doidos ou quase. Segundo, os códigos e leis não dão conta das nossas “modernas” condutas. Terceiro , as forças reguladoras, fiscalizadoras e repressoras são cada vez mais frágeis: o crime, o ilegal, o jeitinho, o “sabem quem sou eu” , o primeiro eu e o segundo também minam por completo a base legal de suas ações. Na melhor das hipóteses, essas forças são omissas.

É aquela história: defendo o aborto desde que não seja na minha (e sua) família, desde que não seja a minha(e sua) filha; aposto que uma criança em situação de risco pode ser protegida se acolhida em um lar estruturado desde que não seja no meu (no seu); é um absurdo a falta de higiene de logradouros públicos mas o meu(e o seu) cachorro podem defecar onde bem entenderem; participo de campanhas pela vida e quase gozo(você também) quando um marginal é espancado ou morto( e se ele matou alguém, a gente acha pouco o castigo que ele recebeu); a gente se assusta com o avanço das drogas, em especial o crack, mas dá uns “tapinhas”, uns “tecos” por aí em nome do descolado, do antenado, do conectado; a gente apóia, pela internet,  todas as solicitações de adesão à alguma causa(desde o perdão de um oposicionista no Afeganistão até a cirurgia para colocação de prótese num cão atropelado mas quase morre de raiva quando o vizinho do lado bate à nossa porta pedindo ajuda.

Não só personalidades e servidores públicos devem dar o exemplo. Aliás, no caso dessas duas categorias, o comportamento e o caráter éticos devem estar implícitos. Nós, também precisamos repensar nosso comportamento. Metemos o pau nos políticos mas não fugimos de uma possibilidade de aproximação, abraço, cumprimento e fotografia. Com um pouco mais de intimidade, pedimos um favor ou oferecemos nossos préstimos. E, cúmulo da falsidade,  juramos que votamos nele. Com as personalidades, pedimos autógrafos e lembrancinhas (os menos afoitos dizem que é para o filho, o neto, a esposa, um amigo, a namorada),tiramos fotos e nos esquecemos das críticas e comentários desabonadores que fizemos sobre elas.

Ótimo quando a lei é aplicada. Contudo, toda vez que a histeria surge como orgasmo dessa aplicação, o punido vira exceção, a falta se transforma em deslize. E o tempo passa, o tempo voa mas a hipocrisia persiste numa boa.

terça-feira, 3 de abril de 2012

RINGUE


Nada pior do que acumular mágoas, ressentimentos, insatisfações. Chega um dia e a casa cai.

Se na vida pessoal e particular esse tipo de ocorrência é sempre desgastante, no ambiente profissional me parece ainda pior. As pessoas se relacionam e vão colecionando insatisfações de toda ordem com a desculpa de que precisam trabalhar, precisam do emprego, o salário não é ruim (salário bom só o é no dia em que dizemos quanto queremos ganhar e o contratador aceita), não querem pedir demissão e perder os direitos. A  lista é grande.

Acontece que seja durante uma reunião, seja durante uma conversa de trabalho – ou até mesmo na mesa de um bar, entre uma cerveja e outra (para os que praticam este tipo de terapia) se perde a estribeira e o tsunami verbal não tem barreira. Destrói tudo.

Não acredito nessa conversa de que “somos um time”. Mas também não voto a favor de que “isso aqui é uma casa de mãe Joana”. Prefiro a exposição clara – e em tempo real – das divergências e contrariedades. E as respectivas soluções.

Protelar atitudes ou armazenar sofrimentos e decepções não contribuem  para nada. Salvo se a empresa pretende diversificar e entrar no negócio de luta livre.

sexta-feira, 30 de março de 2012

TEMPO


O cidadão arranjou um emprego de carteira assinada. Junto com o burocrático, um exame médico para a admissão. Saúde é o que interessa pois todos temos pressa. Se ela não anda bem, a gente não “corre”.

Antes de entrar no consultório, um questionário. As perguntas adiantam o trabalho do doutor. Questões óbvias, respostas nem sempre fidedignas. No caso do cidadão, ao responder que não está grávido, pode-se afirmar que ele não mentiu. Mas em outras perguntas pode ter pegado pela omissão.

Depois, alguns minutos na frente do médico. Pressão ok. Pulmão ok . Tudo ok. Atestado na mão. Entre uma coisa e outra, o tempo para assinatura e carimbo do documento é maior do que o restante.

Agora que as doenças modernas são a falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta disso, a falta daquilo. Agora que os nossos distúrbios são eu quero isto, não tenho aquilo, fulano é melhor do que eu, os males “antigos” se perderam em algum lugar do “espaço”. Você toma um chá que passa.

Time is money, friend!

segunda-feira, 26 de março de 2012

CIRCO EM MOVIMENTO


Falar sobre os problemas do transporte coletivo em Belo Horizonte é “chover no molhado”. Aliás, quando chove costuma entrar água dentro dos ônibus pelo desgaste das borrachas de vedação, etc.

As relações entre usuários e os “agentes de bordo”, classificação chique, talvez retirada do jargão das companhias aéreas – cujo serviço anda de mal a pior – são sempre atritosas. A pressão dos patrões contribui para o estresse do trocador e do motorista. E aquelas carinhas, os emoticons do RH, coladas no para-brisas , dizendo que o motorista “precisa melhorar”, é o fim da picada.

Mas uma situação constrangedora, arriscada e desumana dentro dos ônibus precisa de uma solução imediata do órgão controlador e do legislador municipal. O espaço e as cadeiras antes da roleta são para ocupação preferencial  de gestantes, deficientes e idosos. As gestantes pagam a passagem e descem pela porta da frente. Os deficientes e acompanhantes, devidamente identificados com documento próprio e os idosos, munidos da carteira de identidade, os apresentam para o trocador. Este faz a conferência. Quem não está sobre o amparo do benefício, paga a passagem.

Acontece que para fazer essa conferência, o trocador ( muitos deles mulheres ) precisa sair da sua cadeira, pular a roleta, conferir , pular a roleta de volta e retornar ao seu assento. Essa operação é realizada com o veículo em movimento. Se para os homens já não é muito fácil o contorcionismo, para as mulheres então… Algumas, despreocupadas com o peso, outras parecendo taquarinhas armadas, jovens e de meia-idade se esforçam para executar a operação. Puxam a calça – senão a cintura baixa revela uma “linha do Equador” na vertical –  , enfiam o pé nos vãos da roleta, impulsionam o corpo e “seja o que Deus quiser”. Até que alguém se machuque.

De onde partiu a ordem, não sei. Sei que em tempo onde vereadores distribuem títulos e dão nome à ruas e praças, cabe uma atitude. Se não é da alçada deles que pressionem então para uma mudança do processo junto à BHtrans.

Por falar em pressão, em que lugar deste texto cabe citar o sindicato da categoria?

segunda-feira, 19 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

ROBOCOP DE VITRINE


Vivemos acuados. Vivemos sobre o domínio do medo, coisa de filme, a gente é o filme da coisa. Medo de morrer, medo de empobrecer, medo de ser assaltado, medo de ser assaltado de novo, medo deblitz, medo do outro, medo de escuro, medo de adoecer, medo de perder o emprego, medo do outro morrer , medo de não receber, medo de não pagar, medo da existência da divindade, medo da inexistência da divindade, medo de começar, medo de acabar, medo de dizer sim, medo de ouvir não, medo de amar,medo de não amar…

Nesta síndrome, nos prevenimos de todas as formas possíveis. E não preciso listar aqui. Mas entre a interminável lista de prevenções que incluem cães, cercas elétricas, muralhas e blindados, o comportamento de seguranças em shoppings e lojas beira a insanidade.

Tem cidadão que se acha o "robocop" da vitrine, o xerife do asfalto. Daí, nós, a partir do seu critério de avaliação podemos ser ou não “cidadãos acima de qualquer suspeita”. Se, por causa da paranóia do “rinoceronte de paletó”, somos alcançados pelo seu “sensor de marginalidade”, é melhor se preparar. A situação pode ser constrangedora.

O “mib” passa a nos rastrear , quer dizer, seguir, como um cão farejador. Num ataque de histeria, passa a falar no seu microfonezinho de recepcionista de cassino, ou no talk walk, enquanto faz marcação cerrada. Não somos mais clientes, ou potenciais clientes: somos ladrões – ou potenciais ladrões.

Passei por algumas situações semelhantes. Tirei satisfação, mudei o constrangimento de posição. Respeito o profissional, sei dos riscos aos quais  um comerciante está exposto. Mas ser observado como um possível marginal, um ladrão,  não permito. E exijo retratação.

Ainda que seja um espaço privado, é preciso que o direito de ir e vir, de circular seja garantido. Caso contrário, em pouco tempo, seremos revistados na porta por homens que não estarão mais protegendo o patrimônio alheio. Estarão roubando a nossa liberdade.

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