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domingo, 23 de maio de 2010

ENTRE NÓS



Para um domingo que encaminha para o futebol na televisão(ou um filme, se o jogo for uma "pelada")a poesia de Ivan Turguêniev - O CACHORRO - publicada na seção Imaginação do caderno Ilustríssima do jornal Folha de São Paulo - 23/05/2010:

O CACHORRO

NÓS DOIS NO QUARTO:meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.
O cachorro está sentado à minha frente – e me olha direto nos olhos.
Eu também olho para os olhos dele.
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo – mas eu o entendo.
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...
E fim!
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?
Não! Não são um animal e um homem que se olham...
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.

ALERTA AOS JOVENS

O cronista Affonso Romano de Sant'anna, em "Conversa com jovens" - texto publicado no Cardeno EM Cultura do jornal Estado de Minas -23/05/2010 - lista 8 alertas aos "moços e moças " do século 21. Eis o de número 7:

" A sociedade atual é uma sociedade matrix. Exuberante. Mistura o falso e o verdadeiro, o real e o virtual. Cultiva o fake e o cover. Pior: toma o lixo por luxo, centraliza contraditoriamente a periferia. Com isto, Narciso vive num jogo confuso diante do próprio espelho".

ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE (2)


As reflexões sobre o homem e a morte

(...)Concepção, gestação, nascimento, crescimento, reprodução. Neste fluxograma do existir humano a única operação comum da qual o homem tem certeza mas não sabe o seu quando,como e onde é a morte.
No conjunto das transformações que a humanidade tem sofrido no transcorrer de sua história, afirma Rodrigues(2006), duas ao menos permaneceram constantes, opostas, constituintes e complementares: os homens nascem, os homens morrem. Para ele é uma afirmativa que se sugere óbvia mas que não o é. Ainda que seja objeto de discussões filosóficas, tema recorrente nas mitologias, e com uma diversidade de práticas e ritos que a posicionaram como uma prioridade, a morte, nesses debates e reflexões é a única certeza absoluta no domínio da vida, diz Rodrigues(2006) . É o fim, o último ato de nós nessa existência, evento derradeiro, cujo peso de acontecimento não pode ser negado, mesmo que se lhe negue o valor de aniquilamento, aponta Rodrigues ( 2006).
Nesta trama existencial, vida e morte jogam como sócias no tabuleiro que somos cada um de nós. Pela sua racionalidade, e conseqüente consciência da própria morte, o homem sofre pelo seu fim, enquanto pergunta e procura respostas para que expliquem o sentido de sua existência. Que desvendem a morte e os mistérios que envolvem o antes e o depois de sua existência, nas palavras de Chauí (2003). Nessa perspectiva de compreensão e de estabelecimento de atitudes que possibilitem uma eventual convivência menos angustiante, o homem está, como de resto em tudo com o qual interage, sempre conceituando, refletindo, reinventando paradigmas de morrer. Assim é que, segundo Moreira e Lisboa , citados por Agra e Albuquerque (2008,p.4), pensar e questionar a morte, o morrer são atitudes que aconteceram durante ou em parte da vida de cada homem, uma vez que não existe uma aceitabilidade para a afirmação de que “ as pessoas morrem porque simplesmente estão sujeitas às leis da natureza”(MOREIRA;LISBOA apud AGRA;ALBUQUERQUE,2008,p.4).

Capaz de fomentar inúmeras representações, a morte provoca o universo de símbolos de uma cultura. Não importa qualquer que seja a sua orientação ideológica, religiosa. De certo modo, a nossa cultura interpreta o morrer como um acontecimento imprevisto que desestabiliza a rotina de viver e refuta a sua realidade dentro do nosso existir que é o de demonstrar a efemeridade da vida.

Maranhão citado por Noal (2003), concebe que, por maior que possa ser a conscientização de que somos seres mortais isso não desqualifica a vida; a valoriza porque o vivido jamais será recuperado. Dessa forma, a morte, pela sua inevitabilidade, torna-se a principal razão para se viver, e bem. Adquire uma responsabilidade moral sobre a qualidade do comportamento do indivíduo.

Outros pesquisadores têm uma teoria diferente para essa fatalidade da vida que é o morrer. Kübler-Ross citada por NOAL( 2003), acredita que a morte é apenas a transição para uma forma de vida diferente, o estágio final da evolução terrena. Nessa perspectiva, a morte é um cambiamento para um outro estágio ou uma transmutação do mundo material para o mundo imaterial. Para Kübler-Ross, citada por NOAL(2003), quem constrói a ruptura é a produção simbólica ancorada no modelo ocidental de vida que se projeta através da negação da idéia de impermanência.

A idéia de impermanência é a de que “todos os fenômenos são impermanentes, eles mudam, nada permanece o mesmo. Eles interagem constantemente, se influenciando mutuamente todo o tempo, levando as mudanças, de momento a momento”(CIPRIANI,2009).


Sabemos que todos os seres nascem, adoecem, envelhecem e morrem. As estrelas nascem, mantêm-se e morrem. Pensamentos nascem, mantêm-se e morrem.Tudo no mundo, no Universo, obedece a Lei da Impermanência, independentemente da vontade de quem quer que seja. A cada momento o mundo e seus componentes movimentam-se pelos três períodos do nascimento, envelhecimento e morte. Nada é permanente, nada é eterno. Tudo se transforma sem cessar e a tal ponto que, depois de longos períodos de tempo, nenhum dos aspectos anteriores permanece o mesmo, em nada, absolutamente nada, que exista no Universo.(CIPRIANI,2009).


Muitas pessoas, conforme Noal (2003), ficam chocadas não somente com o instante do morrer, com a presença da morte, mas com tudo o que envolve essa morte. Não estariam aí os sentimentos com relação àquele que morreu mas, sim, um sentimento de aproximação com “a sensação de impermanência de si mesmas, isto é, por colocarem-se no lugar do outro (o sujeito da morte) somente naquele momento” (NOAL,2003,).

Esse momento justifica a afirmação de Elias, citado por Noal(2003,p.4) de que “a morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas”. Para Noal(2003) “Comte-Sponville reconhece que nunca nos encontraremos com nossa própria morte afirmando que ela não é nada para os viventes, uma vez que eles existem, nem para os mortos, uma vez que não existem”(NOAL,2003,p.4). No seu entendimento “ a amplitude da morte e de sua vitória nos preserva dela”(NOAL,2003,p.4) : “a morte nos destrói sem nos atingir” (COMTE-SPONVILLE apud NOAL,2003,p.4). Beauvoir citada por Noal (2003,p.4) sugere que ao participarmos das cerimônias de sepultamento do outro, “assistimos ao ensaio geral do nosso próprio enterro”(BEAUVOIR apud NOAL,2003,p.4).
(...)Uma coisa é encarar a morte como algo inscrito necessariamente no destino dos homens em geral, enquanto membros da classe dos seres vivos, conforme Rodrigues (2006). Outra coisa é pensar a realidade de cada morte individual. É evidente que intercalando os mortos e a morte, quer dizer, entre determinado acontecimento biográfico e determinada condição ontológica – ou melhor, escatológica – segundo Rodrigues( 2006), as ligações, as interligações, aparentemente simples, na verdade são muito mais complexas do que se possa imaginar. Neste conflito, o ser enquanto ser se depara com a consumação do seu tempo e da sua história, ou seja, o seu fim. Que é da sua natureza morrer.

Penso, logo morro! Acontecimento inexorável a que todos nós estamos fadados a experimentar sem podermos transmitir a experiência aos que ainda ficam, a morte que pensamos, ainda que a nossa, é sempre a morte do outro. No entendimento de Rodrigues (2006) não é a morte – para aquele que pensa sobre ela – que apresenta a questão. A morte é uma categoria geral e indefinida, portanto, o que incomoda àquele que reflete sobre ela é que ele morre , o fato de que ‘eu’ morro.

Na concepção de Jankélévitch, citado por Rodrigues(2006,p.17), a morte não é a nossa transformação em um outro mas o fato de virmos a ser o nada. Isso, para ele, traduz-se na mesma coisa ou seja “transformar-se em absolutamente outro, porque, se o relativamente outro é o contraditório do mesmo, se comporta em relação a este como o não-ser em relação ao ser”(JANKÉLÉVITCH apud RODRIGUES,2006,p.17).

FRAGMENTOS PARA UM DOMINGO DE SOL E SOZINHO



- Vovó...

- Sim, meu amor...

- A senhora tem saudades do vovô?

Ela sorriu e eu ouvi, naquele sorriso, que a resposta era sim.

- Se ele estivesse por aqui, deixava a senhora chegar a hora que quisesse?

Vovó parou de lavar sua roupa e contemplou um lugar que só a saudade sabe mostrar.

(Do livro VOVÓ QUER FUGIR DE CASA -Prêmio UBE-RJ - Inédito)

sábado, 22 de maio de 2010

ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE 1


Nestes tempos de projeções,previsões e palpites, calculo que, aos quase 54 anos, tenho um saldo, digamos de uns 20 anos de vida. Mas se houver juros,correção e outros atrativos, eu deva fazer jus a uns 25 anos, ainda. 79...80, vá lá! Epa, vá lá remete para "vala" e vala lembra cova que é sepultura que é pra onde este corpo um dia vai.

Já que o tema resolveu me visitar neste sábado, antes que eu coma uma feijoada que está no congelador desde o sábado passado(creio que não vou morrer por isso), segue alguns escritos sobre "o derradeiro".

A Morte

Cercados de possibilidades e perspectivas, de impossibilidades e insucessos por todos os lados, arremessados ao desafio ou reprimidos nos pequenos desejos, ricos ou pobres, intelectuais de academia ou aprendizes da sabedoria humana, brancos, negros, asiáticos, qualquer que seja a nossa circunstância, a nossa categoria, a nossa posição no desenho sócio-cultural ao qual estamos inseridos, de forma inapelável vamos todos morrer em um certo ano,mês, hora, minuto, segundo por diversos motivos. Rodrigues (2006) afirma que existem diferentes formas de morrer: “morte morrida”, morte por “velhice”, morte “matada”, morte “violenta” e que todas, cada uma a seu modo, instiga atitudes emocionais particulares em cada um dos que ainda sobrevivem.

Ainda que a morte possa se apresentar de diversas maneiras – e mesmo que pudéssemos escolher a mais tranqüila como, por exemplo, dormir e morrer, para essa interrupção, por mais explicações e teorias que se produzam na academia ou nos templos e nas ruas, não há uma resposta. Existe, apenas, conforme Rodrigues(2006), uma tentativa de fechar a angústia da morte dentro de um discurso e de localizar o pensamento sobre ela em um lugar seguro dentro da sociedade e fora de nós.

Prado(2008) afirma que nascemos para a vida e que ninguém quer, verdadeiramente, morrer. Nem mesmo as pessoas que pedem a morte, quando o fazem é porque “têm uma vida ruim e queriam uma melhor” (PRADO,2008, p.5).

A morte fixa, determina, marca, assinala o fim incondicional, incontestável, absoluto de qualquer coisa positiva: um ser humano, um animal, uma planta, uma amizade, uma aliança, a paz, uma época. Não se fala na morte de uma tempestade , mas na morte de um dia belo, apontam Chevalier e Gheerbrant (1999).

Contudo, a morte é também a porta de entrada para os mistérios do desconhecido, para os Infernos e Paraísos, “e que revela a sua ambivalência, como a da terra, e a aproxima, de certa forma, dos ritos de passagem.Ela é revelação e introdução” (CHEVALIER;GHEERBRANT ,1999,p.621).

Nos estudos da simbologia da morte é determinante o fato de que qualquer iniciação passa, necessariamente por uma espécie de fase de morte como primeiro passo de ingresso a uma vida nova. A purificação do homem que opta por uma reformulação material e espiritual requer, anteriormente, que ele elimine tudo o que traz de negativo, de prejudicial, impuro, maléfico, pecaminoso. É preciso que ele “morra” e “nasça” outro.

O homem experimenta diversas mortes simbólicas na sua trajetória. A morte do pai é um exemplo (há ainda a “morte da família” quando se deixa o lar paterno, as mortes da infância, da adolescência, entre outras), a partir da abordagem freudiana da história de Édipo Rei, escrita por Sófocles, “em que o pai ocupa o lugar de terceiro na relação da mãe com o filho e que impossibilita a completude da criança”(HARTMANN, 2006,p.4).

Nesse sentido, a morte tem uma atuação marcante, ela tem um mérito inerente, interior sobre os estados e disposições psíquicas de idéias de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos: é aquela que torna livre o indivíduo das influências negativas e recupera, nele, toda a energia positiva do espírito.

Chevalier e Gheerbrant(1999) ponderam que se a morte, por si mesma, é filha da noite e irmã do sono, então ela teria, como sua mãe e seu irmão, a capacidade de revivificar, de reconstituir o que foi destruído. Assim, se o ser que ela mata é materialista e vive na bestialidade, seu caminho pós-vida é a sombra dos Infernos. Ao contrário, se experimenta e vivencia o crescimento moral, a elevação e fortalecimento do espírito, a morte descortinaria para ele os campos de luz. Eles apontam para o fato de que os místicos, em concordância com médicos e psicólogos, perceberam a coexistência da morte e da vida em todas as fases do existir do ser humano, o que significaria um tensionamento contínuo entre duas forças antagônicas e, ao mesmo tempo sugere que a morte em um nível possa ser o estado de uma vida superior em outro nível. É por isso que, no Tarô, a Morte , o esqueleto armado de foice, o arcano maior número 13, está associada à renovação e ao nascimento. Na perspectiva esotérica, é a mudança profunda pela qual passam os seres humanos sob o efeito da Iniciação. Wirt citado por Chevalier e Gheerbrant(1999,p.622), explica que “o profano deve morrer para que renasça à vida superior conferida pela Iniciação”.

Ainda que simbologicamente libertadora, via de transição de um estado de ser para outro, a morte é um enigma que a inteligência humana é incapaz de explicar ou compreender. Assim, ela alimenta os sentimentos mais angustiantes e as figurações mais tenebrosas. É levada ao máximo, a resistência à mudança e a uma forma de existência desconhecida, mais do que o medo de uma absorção pelo nada,conforme Chevalier e Gheerbrant(1999).

Por isso, na percepção de Prado (2008), “a finitude é um tormento assim como o tempo, pois, apesar de sermos finitos, nós intuímos e desejamos o infinito, a vida eterna, que não se acaba, a felicidade, saúde, alegria, beleza”(PRADO,2008,p.5). Nesta reflexão, o não querer tudo isso expressaria que a vida não teria significado.

domingo, 16 de maio de 2010

FOREVER


The Way You Look Tonight
Composição: letra: Dorothy Fields música: Jerome Kern

Someday, when I'm awfully low
When the world is cold
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight

You're so lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft
There is nothing for me but to love you
And the way you look tonight

With each word your tenderness grows
Tearing my fears apart
And that laugh that wrinkles your nose
Touches my foolish heart

Yes you're lovely, never ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it?
'Cause I love you
Just the way you look tonight

With each word your tenderness grows
Tearing my fears apart
And that laugh that wrinkles your nose
Touches my foolish heart

Yes you're lovely, never ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it?
'Cause I love you
Just the way you look tonight
Just the way you look tonight
Darling
Just the way you look tonight

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SAUDADE

FOTOGRAMA DO FILME "AS VINHAS DA IRA"

Distante.Distância.Disto.Isto.Nisto.Insisto.Persisto.Espero.Antes.Instante.Distante.
Isto.


NAQUELA ESTAÇÃO
Composição: João Donato / Caetano Veloso / Ronaldo Bastos

Você entrou no trem
E eu na estação
Vendo um céu fugir
Também não dava mais
Para tentar
Lhe convencer
A não partir...

E agora, tudo bem
Você partiu
Para ver outras paisagens
E o meu coração embora
Finja fazer mil viagens
Fica batendo parado
Naquela estação....

E o meu coração embora
Finja fazer mil viagens
Fica batendo parado
Naquela estação...

Você entrou no trem
E eu na estação
Vendo um céu fugir
Também não dava mais
Para tentar
Lhe convencer
A não partir...

E agora, tudo bem
Você partiu
Para ver outras paisagens
E o meu coração embora
Finja fazer mil viagens
Fica batendo parado
Naquela estação....

E o meu coração embora
Finja fazer mil viagens
Fica batendo parado
Naquela estação...

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