A luz.
Mística.
Misteriosa.
Revelação da existência.
Existir diante da luz. Conceder um instante da vida para um instante da infinitude. Descortinar-se das sombras e ser.
Não há dúvidas diante da claridade. Iluminados, nos tornamos cúmplices. Nesta cumplicidade nos tornamos parceiros, amigos, irmãos. Discretos ou eloqüentes sonhadores, saímos mundo afora dando notícias de nós, conhecendo histórias de outros. Assistimos a narrativa ora trágica, ora romântica, ora utópica da incessante trajetória da humanidade em busca de si mesma.
Viajamos em imagens, pelas imagens, como imagens. Assim, de realidade em realidade, vamos encontrando as sutis significâncias dos objetos, o angustiado significado do homem. Aprendemos, entre as nossas tantas veredas, que viver é um grande risco.
Tudo luz. Luz de amor. Luz de alegria. Luz de vitória. Luz de conhecimento. Luz de sabedoria. Luz de transgressão. Luz de atrevimento. Luz de descobrir.
Descobrir faz parte da nossa luz. Para o caos das nossas ansiedades, a palavra que orienta, o ombro que acalma; para a ansiedade dos nossos desejos, a mão que acaricia , o olhar que pondera;para a dor das nossas dificuldades e perdas, o abraço que fortifica , o beijo que reaquece.
Eis a razão da luz: permitir que todas as trocas possíveis aconteçam transparentes; permitir que as palavras que expressamos sejam no mesmo idioma das palavras que sentimos;permitir que os gestos que encenamos sejam os mesmos do roteiro de verdade que ensaiamos;permitir que o desejo de felicidade que externamos seja o mesmo que derrota o nosso egoísmo e a nossa inveja.
Permitir que a nossa fugaz caminhada por este planeta deixe, para os que estão vindo, sinais seguros e lembranças singelas de que o caminho que trilhamos é uma boa opção. Opção para quem acredita que nada se realiza sozinho. Que ninguém se faz sozinho. Nem a luz, que só é luz porque tem infinitas histórias para iluminar.
Sítio para se reunir umas idéias,alastrar umas poesias, pendurar fotos, elogiar as artes e artimanhas, atrair humanidades e ir, ir, ir ...
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
O QUE LI E ASSISTI EM 2010 - DE 22 DE NOVEMBRO A 31 DE DEZEMBRO
LIVROS
Caminhos Cruzados (Erico Verissimo);
Se uma criança, numa manhã de verão...(Carta para meu filho sobre o amor pelos livros) (Roberto Cotroneo;
Contos de amor, de loucura e de morte(Horacio Quiroga).
FILMES
Vale proibido
Caminhos Cruzados (Erico Verissimo);
Se uma criança, numa manhã de verão...(Carta para meu filho sobre o amor pelos livros) (Roberto Cotroneo;
Contos de amor, de loucura e de morte(Horacio Quiroga).
FILMES
Vale proibido
CHOVE LÁ FORA
Sexta-feira de Europa Central. Cinza. Chuvosa. Fria. Da janela do escritório – tem sempre uma janela nesses momentos – olho o lá na frente. Sinto falta de uma boa xícara de café. Ouço Ravel, Daphnis et Chloé, suíte número 2. Não sei se é chique ouvir Ravel às 9 horas de uma manhã que é quase noite. Melhor confessar que é triste.
A falta de uma boa xícara de café é circunstancial, posso bem providenciar uma. Claro que preciso dos ingredientes. Infelizmente falta o pó e o medo do gás acabar é muito maior do que a vontade de sentir aquele cheiro gostoso de café novo.
Posso pegar o telefone e ligar. Deixe-me pensar…para quem? Para falar sobre qual assunto? Ou só ouvir?
Talvez uma mensagem via celular: Ei,td bm ? O destinatário pode imaginar se eu não quero é que esteja td ml .
Um e-mail, óbvio, como não pensei nisso quatro parágrafos atrás?! Posso arriscar umas duas, três linhas. Pode chegar até 5 ou 6 se eu abrir a guarda e se quem vai recebê-lo seja muito íntimo, muito cúmplice. Daqueles que simplesmente entendem o seu desabafo, não se sentem co-responsáveis pelo seu estar de momento e se apresentam como uma potencial companhia para um café. Eu pago, respondem.
Chove lá fora, diz o refrão da música, e aqui dentro, por detrás de uma janela, luto para não admitir que está tão vazio. Contudo, preencher com alguma coisa me dá uma certa preguiça. Chove lá fora e eu estou muito chato aqui dentro. Dentro do escritório, dentro de mim mesmo.
A chuva joga o jogo das intensidades. A vida também tem intensidades. Jogamos esse jogo com ela, cada um com sua estratégia, cada um sua sorte. É acertar ou errar.
A janela é, nessa manhã chuvosa e escura, ao som de Ravel – e não é o Bolero – um salão de danças. Que, como tudo, me oferece duas alternativas já que estou aqui: ou chamo alguém para dançar ou fico sentado ouvindo a melodia até a hora de me levantar e voltar …
A falta de uma boa xícara de café é circunstancial, posso bem providenciar uma. Claro que preciso dos ingredientes. Infelizmente falta o pó e o medo do gás acabar é muito maior do que a vontade de sentir aquele cheiro gostoso de café novo.
Posso pegar o telefone e ligar. Deixe-me pensar…para quem? Para falar sobre qual assunto? Ou só ouvir?
Talvez uma mensagem via celular: Ei,td bm ? O destinatário pode imaginar se eu não quero é que esteja td ml .
Um e-mail, óbvio, como não pensei nisso quatro parágrafos atrás?! Posso arriscar umas duas, três linhas. Pode chegar até 5 ou 6 se eu abrir a guarda e se quem vai recebê-lo seja muito íntimo, muito cúmplice. Daqueles que simplesmente entendem o seu desabafo, não se sentem co-responsáveis pelo seu estar de momento e se apresentam como uma potencial companhia para um café. Eu pago, respondem.
Chove lá fora, diz o refrão da música, e aqui dentro, por detrás de uma janela, luto para não admitir que está tão vazio. Contudo, preencher com alguma coisa me dá uma certa preguiça. Chove lá fora e eu estou muito chato aqui dentro. Dentro do escritório, dentro de mim mesmo.
A chuva joga o jogo das intensidades. A vida também tem intensidades. Jogamos esse jogo com ela, cada um com sua estratégia, cada um sua sorte. É acertar ou errar.
A janela é, nessa manhã chuvosa e escura, ao som de Ravel – e não é o Bolero – um salão de danças. Que, como tudo, me oferece duas alternativas já que estou aqui: ou chamo alguém para dançar ou fico sentado ouvindo a melodia até a hora de me levantar e voltar …
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
"AKI,KBÔ,TÁ?! BJUS"
Na sua coluna de quinta-feira(11 de novembro), no jornal Folha de São Paulo, Contardo Calligaris, com o título “ Despedidas virtuais” escreveu sobre términos de relacionamentos através da internet ou de torpedos via celular. Em forma de pergunta, esta questão fez parte de uma pesquisa realizada pela Nokia “sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital”. 15% dos entrevistados responderam sim.
Ao final de seu texto, escreve Calligaris: “ É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga(mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, “Valeu,beijão e sorte”. Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida”.
Hoje, domingo, 14 de novembro, no jornal Hoje em Dia, Martha Medeiros trata do fim das relações amorosas, em “Contigo e sentigo”. Com a pergunta “ que tipo de final desejamos”?, ela afirma que “a maneira como se coloca o ponto final nas relações deixa evidente o verdadeiro espírito que norteou o que foi vivido”.
Começamos relações de afeto, de amor, de casal apaixonado com a perspectiva de que seja duradoura até que um parta desse para o além, desde que não seja o além-mar. Salvo aqueles encontros casuais que se alimentam mais pela voraz vontade de consumir-se a si e ao outro em tresloucada aventura de amor servida com sexo, droga e o ritmo musical que cada um prefira, relações de duas pessoas que se gostam devem durar para sempre. É?
O amor, como diz Vinicius, “que não seja imortal, posto que é chama/mas que seja infinito enquanto dure”, é um concerto de regência dupla com partituras ora límpidas e legíveis, ora riscadas e de sonoridade inaudível. Mas concerto.
Como concerto, sua escrita é cercada de ansiedades, palpitações, timidez, uns bons goles de bebida forte, páginas e páginas de poesia, lágrimas, flores, confissões, promessas, uma pitada de medo e, claro, sinais, sinais, sinais. Um sorriso, um carinho, uma brincadeirinha com segundas, terceiras, quartas intenções, uma cabeça aberta que compreende o outro acima de todas as coisas, um presentinho, uma companhia. Tudo tão lindo, tão romântico e civilizado. O melhor dos lugares-comuns. Vai que um dia a chama puft!
O concerto não tem mais conserto. Se a regência foi em dupla, a chance dos dois, depois do aplauso da platéia, se curvarem um para o outro em agradecimento é grande. Um final feliz, também apaixonante, onde cada um percebe que ofertou e recebeu do outro tudo o que de melhor tinha e queria. Mas esgotaram-se as fontes. Como o tempo não para, segundo Cazuza, cada um vai em busca de um novo abastecer. Costuma até se reencontrarem, mas não é o fio dessa conversa.
O normal é que as separações sejam previamente anunciadas pelo que há de pior: indiferença, crítica, egoísmo, tutela, desconfiança, ciúme doentio, traição. E a parte interessada em que tudo acabe, faz o jogo de gato e rato, forçando a barra. Na maioria das vezes, esperando que a parte que não quer acabe dizendo que quer. Aí, o covarde vira vítima e diz “já que você quer assim, tudo bem”. Ou então se deixa convencer de que tudo vai mudar. Segura a onda mais uns meses e, então,…
As relações afetivas quase sempre terminam com atitudes de covardia, ao contrário da valentia desenfreada no instante da corte e da conquista. Usar a internet ou o SMS é o modo mais prático de fugir ao olhar do outro que, também, ao invés de dar por encerrado o assunto, se predispõem a discutir a situação como uma tese de doutorado.
Separações lacônicas acontecem porque as relações para as partes – ou ambas as partes – chega ao limite da tolerância e, com certeza costumam ser melhores do que aquelas discussões improdutivas e, inevitavelmente agressivas ou dolorosas, que só servem para que sejam despejados os lixos acumulados.
Mas, ainda assim, se foi olhando nos olhos do outro e segurando-lhe as mãos que confessamos o amor, melhor seria se o mesmo acontecesse se esse amor deixou de durar.
Quem ama deve saber que o outro é um outro.
Ao final de seu texto, escreve Calligaris: “ É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga(mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, “Valeu,beijão e sorte”. Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida”.
Hoje, domingo, 14 de novembro, no jornal Hoje em Dia, Martha Medeiros trata do fim das relações amorosas, em “Contigo e sentigo”. Com a pergunta “ que tipo de final desejamos”?, ela afirma que “a maneira como se coloca o ponto final nas relações deixa evidente o verdadeiro espírito que norteou o que foi vivido”.
Começamos relações de afeto, de amor, de casal apaixonado com a perspectiva de que seja duradoura até que um parta desse para o além, desde que não seja o além-mar. Salvo aqueles encontros casuais que se alimentam mais pela voraz vontade de consumir-se a si e ao outro em tresloucada aventura de amor servida com sexo, droga e o ritmo musical que cada um prefira, relações de duas pessoas que se gostam devem durar para sempre. É?
O amor, como diz Vinicius, “que não seja imortal, posto que é chama/mas que seja infinito enquanto dure”, é um concerto de regência dupla com partituras ora límpidas e legíveis, ora riscadas e de sonoridade inaudível. Mas concerto.
Como concerto, sua escrita é cercada de ansiedades, palpitações, timidez, uns bons goles de bebida forte, páginas e páginas de poesia, lágrimas, flores, confissões, promessas, uma pitada de medo e, claro, sinais, sinais, sinais. Um sorriso, um carinho, uma brincadeirinha com segundas, terceiras, quartas intenções, uma cabeça aberta que compreende o outro acima de todas as coisas, um presentinho, uma companhia. Tudo tão lindo, tão romântico e civilizado. O melhor dos lugares-comuns. Vai que um dia a chama puft!
O concerto não tem mais conserto. Se a regência foi em dupla, a chance dos dois, depois do aplauso da platéia, se curvarem um para o outro em agradecimento é grande. Um final feliz, também apaixonante, onde cada um percebe que ofertou e recebeu do outro tudo o que de melhor tinha e queria. Mas esgotaram-se as fontes. Como o tempo não para, segundo Cazuza, cada um vai em busca de um novo abastecer. Costuma até se reencontrarem, mas não é o fio dessa conversa.
O normal é que as separações sejam previamente anunciadas pelo que há de pior: indiferença, crítica, egoísmo, tutela, desconfiança, ciúme doentio, traição. E a parte interessada em que tudo acabe, faz o jogo de gato e rato, forçando a barra. Na maioria das vezes, esperando que a parte que não quer acabe dizendo que quer. Aí, o covarde vira vítima e diz “já que você quer assim, tudo bem”. Ou então se deixa convencer de que tudo vai mudar. Segura a onda mais uns meses e, então,…
As relações afetivas quase sempre terminam com atitudes de covardia, ao contrário da valentia desenfreada no instante da corte e da conquista. Usar a internet ou o SMS é o modo mais prático de fugir ao olhar do outro que, também, ao invés de dar por encerrado o assunto, se predispõem a discutir a situação como uma tese de doutorado.
Separações lacônicas acontecem porque as relações para as partes – ou ambas as partes – chega ao limite da tolerância e, com certeza costumam ser melhores do que aquelas discussões improdutivas e, inevitavelmente agressivas ou dolorosas, que só servem para que sejam despejados os lixos acumulados.
Mas, ainda assim, se foi olhando nos olhos do outro e segurando-lhe as mãos que confessamos o amor, melhor seria se o mesmo acontecesse se esse amor deixou de durar.
Quem ama deve saber que o outro é um outro.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
ERRARE HUMANUM EST ?
Quantas vezes a gente não sente um frio na barriga por causa de uma atitude, uma indiferença, uma agressão verbal ou física – ou as duas . Enfim, quantas vezes aquele frio do arrependimento não faz doer as nossas entranhas. Não minta! Muitas, muitas vezes.
Até aqui, tudo bem. E dessas tantas friagens quantas você conseguiu “aquecer” com um pedido de desculpas, uma reconsideração, uma expiação? E, importante, com uma profunda revisão sobre os seus sentimentos e seus modos de se relacionar consigo e comigo, por exemplo? Não minta de novo! Poucas. Dar o braço a torcer causa luxação no orgulho.
Existem certos erros que cometemos que escapam à máxima de Sphronius Eusebius Hieronymus , São Jerônimo para os mais íntimos, de que errare humanum est. Tem coisas que a gente faz que dá uma vergonha tão grande, depois, capaz de remoer dentro do nosso juízo até o final dos tempos.
A dureza está em reconhecer esse erro e dar um jeito de se redimir dele. E não comete-lo mais. Nem outros, se possível. São Jerônimo também experimentou essa dificuldade. Como um dos “padres da Igreja” , como são conhecidos os teólogos nos primórdios do Cristianismo, Jerônimo era meio renitente. Reclama com Pammachius daqueles que fizeram críticas contundentes à sua tradução da Bíblia para o latim, a vulgata.
O tempo passa e pensamos que os erros e as suas consequências vão juntos. Não é uma questão de cronologia, é uma questão de carinho, amor, respeito e humildade. Bater à porta, ao coração, ao olhar, ao peito do outro e reconhecer que erramos vai doer mais que injeção contra tétano. Mas vai nos imunizar contra novas infecções e recuperar a saúde de relações estremecidas – até rompidas , em virtude de um estupidez, de uma incompreensão nossa.
Considerar o outro como parceiro e cúmplice nessa nossa misteriosa caminhada por este planeta-prisão ( a gente não pode voar, nem ir às profundezas abissais; se andarmos, em qualquer direção, vamos chegar aos ponto de onde partimos) é lembrar que nada sabemos. E jamais saberemos. Somos ignorantes e frágeis demais para magoar o outro. Em qualquer sentido.
Rachel de Queiroz- seu centenário de nascimento é amanhã, 17/11- em “Sempre o regresso” , crônica publicada no jornal Estado de Minas de 18 de junho de 1999, diz: “ A vida é mesmo difícil em toda parte do mundo, não é? Tem hora em que você se sente estrangeiro em casa, e em contrapartida se sente muito bem num canto onde nunca antes andou! Ah, os mistérios começam cedo. Quando eu tinha seis anos e meu pai me ensinou que a Terra era redonda, custava a dormir, impressionada com o perigo de despencar para fora – e aí? A gente sofre por saber e sofre por não saber, mas tem medo mesmo é da morte”.
Eu sofro por saber que cometi tantos erros e de poucos me desculpei. Quantas pessoas eu precisaria abraçar, ajoelhar aos pés e pedir perdão pelo que fiz ou falei. Tanta prepotência e tanta auto-suficiência.
Eu sofro por não saber se conseguirei me livrar desses constantes frios na barriga.
Dizem que o homem nasce,vive e morre com um vazio. Não tenho medo de morrer de morte. Tenho medo é de morrer por causa desses constantes esfriamentos.
Perdão!
Até aqui, tudo bem. E dessas tantas friagens quantas você conseguiu “aquecer” com um pedido de desculpas, uma reconsideração, uma expiação? E, importante, com uma profunda revisão sobre os seus sentimentos e seus modos de se relacionar consigo e comigo, por exemplo? Não minta de novo! Poucas. Dar o braço a torcer causa luxação no orgulho.
Existem certos erros que cometemos que escapam à máxima de Sphronius Eusebius Hieronymus , São Jerônimo para os mais íntimos, de que errare humanum est. Tem coisas que a gente faz que dá uma vergonha tão grande, depois, capaz de remoer dentro do nosso juízo até o final dos tempos.
A dureza está em reconhecer esse erro e dar um jeito de se redimir dele. E não comete-lo mais. Nem outros, se possível. São Jerônimo também experimentou essa dificuldade. Como um dos “padres da Igreja” , como são conhecidos os teólogos nos primórdios do Cristianismo, Jerônimo era meio renitente. Reclama com Pammachius daqueles que fizeram críticas contundentes à sua tradução da Bíblia para o latim, a vulgata.
O tempo passa e pensamos que os erros e as suas consequências vão juntos. Não é uma questão de cronologia, é uma questão de carinho, amor, respeito e humildade. Bater à porta, ao coração, ao olhar, ao peito do outro e reconhecer que erramos vai doer mais que injeção contra tétano. Mas vai nos imunizar contra novas infecções e recuperar a saúde de relações estremecidas – até rompidas , em virtude de um estupidez, de uma incompreensão nossa.
Considerar o outro como parceiro e cúmplice nessa nossa misteriosa caminhada por este planeta-prisão ( a gente não pode voar, nem ir às profundezas abissais; se andarmos, em qualquer direção, vamos chegar aos ponto de onde partimos) é lembrar que nada sabemos. E jamais saberemos. Somos ignorantes e frágeis demais para magoar o outro. Em qualquer sentido.
Rachel de Queiroz- seu centenário de nascimento é amanhã, 17/11- em “Sempre o regresso” , crônica publicada no jornal Estado de Minas de 18 de junho de 1999, diz: “ A vida é mesmo difícil em toda parte do mundo, não é? Tem hora em que você se sente estrangeiro em casa, e em contrapartida se sente muito bem num canto onde nunca antes andou! Ah, os mistérios começam cedo. Quando eu tinha seis anos e meu pai me ensinou que a Terra era redonda, custava a dormir, impressionada com o perigo de despencar para fora – e aí? A gente sofre por saber e sofre por não saber, mas tem medo mesmo é da morte”.
Eu sofro por saber que cometi tantos erros e de poucos me desculpei. Quantas pessoas eu precisaria abraçar, ajoelhar aos pés e pedir perdão pelo que fiz ou falei. Tanta prepotência e tanta auto-suficiência.
Eu sofro por não saber se conseguirei me livrar desses constantes frios na barriga.
Dizem que o homem nasce,vive e morre com um vazio. Não tenho medo de morrer de morte. Tenho medo é de morrer por causa desses constantes esfriamentos.
Perdão!
A ILUSÃO DE VIVER
A leitura é um dos meus maiores prazeres. Agora dividida com a paixão pelos dois netos, Samuel e Gabriel. Tantas histórias li e reli. Nos livros das inúmeras bibliotecas as quais tive e tenho acesso. Nos livros presenteados por meus pais, Seu Wantuil e Dona Filinha, pela minha avó, Dona Lica, pela Tia Lourdinha. E por amigos, por amores, pela amada. Nos livros que estão por todos os cantos da casa onde moro com minha Lady, uma cadela da raça Labrador.
Reinações de Narizinho, Três escoteiros no rio Paraguai, As Brumas de Avalon, coisas sobre Woody Allen, escritos de Lya Luft, José Saramago, os clássicos, Vila dos Confins, Chapadão do Bugre, Cem anos de solidão, Pantaleão e as visitadoras, A menina morta, …Tantos, todos os dias e por todos os dias que espero sejam autorizados a vir.
Esses possíveis dias que virão me remetem para a ilusão do viver. Vamos morrendo todos os dias. Cada minuto vivido corresponde a um minuto mais perto do fim. Portanto, sem pessimismo, nada melhor do que iludir-se e…viver.
Assim me parece ter sido o sentimento de uma menina, personagem de uma das tantas histórias que li. Neste caso, uma história de um livro que minha mãe comprou, creio, nas Lojas Americanas, lá se vão alguns muitos anos. Daí, a justificativa por não lembrar o título.
Pobre, a protagonista – e primogênita – na véspera de Natal sai pelas ruas geladas de sua cidade para vender caixas de fósforos coloridos. Esses fósforos que costumamos usar nas festas juninas. Vender essas caixas e levar algum dinheiro para amenizar, pelo menos por uma noite, a fome de sua mãe, viúva , e seus irmãos, é a grande tarefa da menina.
Contudo, ninguém se interessa pelos fósforos e muito menos pela criança. O frio aperta, volta a nevar. Por mais paradoxal que seja, a personagem descobre que vai morrer congelada se não tomar uma providência. E toma. Não vai embora para casa. Acredita que venderá algumas caixas. Ao mesmo tempo, começa a riscar um fósforo de cada vez na expectativa de aquecer o corpinho frágil.
A cada fósforo riscado, a noite gelada recolhe-se momentaneamente no abraço de luz ora verde, ora vermelha, ora azul. que tenta aquecer a menina. Mas, no instante seguinte, o frio escuro retorna, implacável. O rostinho da pobre criaturinha, a cada brilho, é um flash de esperança que, com a volta da noite, nubla-se de angústia.
Ela queima fósforo após fósforo e as respectivas caixas vazias. Por fim, o último fósforo, a última caixa e o frio sacando-lhe a vida.
Vivemos a ilusão da vida com as caixas de fósforo que recebemos. Primeiro, deixamos que sejam queimados por terceiros. Depois acreditamos que podemos queimá-los sozinhos. A seguir, os queimamos apenas para nós. Quando descobrimos que poderíamos fazê-los coletivamente, dividir com alguém, costuma ser tarde.
Na noite do egoísmo, do consumismo exacerbado, na falta de comunicação, no desamor, na usura e na ganância, no cerceamento da liberdade, na eliminação da palavra nossos fósforos se vão. E não é possível guardá-los pois a ilusão de viver não pode ser para amanhã. A vida não pode ser guardada para uso posterior.
A vida é a chama colorida de cada fósforo de cada caixa.Não temos a menor ideia das quantidades. O máximo que podemos fazer é direcionar a sua luz ou aceitar a escuridão que faz a intermediação com próximo acender. Se esse houver.
Reinações de Narizinho, Três escoteiros no rio Paraguai, As Brumas de Avalon, coisas sobre Woody Allen, escritos de Lya Luft, José Saramago, os clássicos, Vila dos Confins, Chapadão do Bugre, Cem anos de solidão, Pantaleão e as visitadoras, A menina morta, …Tantos, todos os dias e por todos os dias que espero sejam autorizados a vir.
Esses possíveis dias que virão me remetem para a ilusão do viver. Vamos morrendo todos os dias. Cada minuto vivido corresponde a um minuto mais perto do fim. Portanto, sem pessimismo, nada melhor do que iludir-se e…viver.
Assim me parece ter sido o sentimento de uma menina, personagem de uma das tantas histórias que li. Neste caso, uma história de um livro que minha mãe comprou, creio, nas Lojas Americanas, lá se vão alguns muitos anos. Daí, a justificativa por não lembrar o título.
Pobre, a protagonista – e primogênita – na véspera de Natal sai pelas ruas geladas de sua cidade para vender caixas de fósforos coloridos. Esses fósforos que costumamos usar nas festas juninas. Vender essas caixas e levar algum dinheiro para amenizar, pelo menos por uma noite, a fome de sua mãe, viúva , e seus irmãos, é a grande tarefa da menina.
Contudo, ninguém se interessa pelos fósforos e muito menos pela criança. O frio aperta, volta a nevar. Por mais paradoxal que seja, a personagem descobre que vai morrer congelada se não tomar uma providência. E toma. Não vai embora para casa. Acredita que venderá algumas caixas. Ao mesmo tempo, começa a riscar um fósforo de cada vez na expectativa de aquecer o corpinho frágil.
A cada fósforo riscado, a noite gelada recolhe-se momentaneamente no abraço de luz ora verde, ora vermelha, ora azul. que tenta aquecer a menina. Mas, no instante seguinte, o frio escuro retorna, implacável. O rostinho da pobre criaturinha, a cada brilho, é um flash de esperança que, com a volta da noite, nubla-se de angústia.
Ela queima fósforo após fósforo e as respectivas caixas vazias. Por fim, o último fósforo, a última caixa e o frio sacando-lhe a vida.
Vivemos a ilusão da vida com as caixas de fósforo que recebemos. Primeiro, deixamos que sejam queimados por terceiros. Depois acreditamos que podemos queimá-los sozinhos. A seguir, os queimamos apenas para nós. Quando descobrimos que poderíamos fazê-los coletivamente, dividir com alguém, costuma ser tarde.
Na noite do egoísmo, do consumismo exacerbado, na falta de comunicação, no desamor, na usura e na ganância, no cerceamento da liberdade, na eliminação da palavra nossos fósforos se vão. E não é possível guardá-los pois a ilusão de viver não pode ser para amanhã. A vida não pode ser guardada para uso posterior.
A vida é a chama colorida de cada fósforo de cada caixa.Não temos a menor ideia das quantidades. O máximo que podemos fazer é direcionar a sua luz ou aceitar a escuridão que faz a intermediação com próximo acender. Se esse houver.
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