Sítio para se reunir umas idéias,alastrar umas poesias, pendurar fotos, elogiar as artes e artimanhas, atrair humanidades e ir, ir, ir ...
segunda-feira, 19 de março de 2012
sábado, 17 de março de 2012
ROBOCOP DE VITRINE
Vivemos acuados. Vivemos sobre o domínio do medo, coisa de filme, a gente é o filme da coisa. Medo de morrer, medo de empobrecer, medo de ser assaltado, medo de ser assaltado de novo, medo deblitz, medo do outro, medo de escuro, medo de adoecer, medo de perder o emprego, medo do outro morrer , medo de não receber, medo de não pagar, medo da existência da divindade, medo da inexistência da divindade, medo de começar, medo de acabar, medo de dizer sim, medo de ouvir não, medo de amar,medo de não amar…
Nesta síndrome, nos prevenimos de todas as formas possíveis. E não preciso listar aqui. Mas entre a interminável lista de prevenções que incluem cães, cercas elétricas, muralhas e blindados, o comportamento de seguranças em shoppings e lojas beira a insanidade.
Tem cidadão que se acha o "robocop" da vitrine, o xerife do asfalto. Daí, nós, a partir do seu critério de avaliação podemos ser ou não “cidadãos acima de qualquer suspeita”. Se, por causa da paranóia do “rinoceronte de paletó”, somos alcançados pelo seu “sensor de marginalidade”, é melhor se preparar. A situação pode ser constrangedora.
O “mib” passa a nos rastrear , quer dizer, seguir, como um cão farejador. Num ataque de histeria, passa a falar no seu microfonezinho de recepcionista de cassino, ou no talk walk, enquanto faz marcação cerrada. Não somos mais clientes, ou potenciais clientes: somos ladrões – ou potenciais ladrões.
Passei por algumas situações semelhantes. Tirei satisfação, mudei o constrangimento de posição. Respeito o profissional, sei dos riscos aos quais um comerciante está exposto. Mas ser observado como um possível marginal, um ladrão, não permito. E exijo retratação.
Ainda que seja um espaço privado, é preciso que o direito de ir e vir, de circular seja garantido. Caso contrário, em pouco tempo, seremos revistados na porta por homens que não estarão mais protegendo o patrimônio alheio. Estarão roubando a nossa liberdade.
quarta-feira, 14 de março de 2012
SIMPLES
SIMPLES
Início da noite, cachorro-quente, suco de pêssego e pernilongos brigando de “pegar onda” na frente do ventilador ligado. Nematoceras fora, o clima é de aconchego, carinhos, palavras amenas, risos. Pedaços de chocolate adocicam a preguiça e o sono que se aproxima.
São muito simples a felicidade e a paz quando as queremos para nós e para os outros.Respeitamos os interesses alheios, citamos os da gente e descobrimos, sempre, vontades comuns. Daí é oferecer e receber. A vida, repleta de reciprocidades do coração, é muito mais agradável, uma sensação de eternidade.
Cumplicidade é fundamental entre pessoas que acreditam na harmonia e nos afetos. Nada melhor do que um carinho. Nada mais gostoso do que um toque mais ousado, uma “pegada” viril, um beijo na boca, a madrugada entre abraços.
No dia seguinte, o nosso olhar acorda e encontra o olhar amado. Tudo devia parar aqui, entre olhares. O mundo todo dentro desses limites, dentro das fronteiras dos nossos olhos. De mãos dadas, confirmamos que amar é um jogo de complementos. Um jogo de regras básicas mínimas e responsabilidades complexas máximas.
Neste infinito tabuleiro, a sutileza dos movimentos é a essência misteriosa que nos envolve e nos alimenta. E neste jogo, se amamos, ninguém perde.
Início da noite, cachorro-quente, suco de pêssego e pernilongos brigando de “pegar onda” na frente do ventilador ligado. Nematoceras fora, o clima é de aconchego, carinhos, palavras amenas, risos. Pedaços de chocolate adocicam a preguiça e o sono que se aproxima.
São muito simples a felicidade e a paz quando as queremos para nós e para os outros.Respeitamos os interesses alheios, citamos os da gente e descobrimos, sempre, vontades comuns. Daí é oferecer e receber. A vida, repleta de reciprocidades do coração, é muito mais agradável, uma sensação de eternidade.
Cumplicidade é fundamental entre pessoas que acreditam na harmonia e nos afetos. Nada melhor do que um carinho. Nada mais gostoso do que um toque mais ousado, uma “pegada” viril, um beijo na boca, a madrugada entre abraços.
No dia seguinte, o nosso olhar acorda e encontra o olhar amado. Tudo devia parar aqui, entre olhares. O mundo todo dentro desses limites, dentro das fronteiras dos nossos olhos. De mãos dadas, confirmamos que amar é um jogo de complementos. Um jogo de regras básicas mínimas e responsabilidades complexas máximas.
Neste infinito tabuleiro, a sutileza dos movimentos é a essência misteriosa que nos envolve e nos alimenta. E neste jogo, se amamos, ninguém perde.
sábado, 10 de março de 2012
FRAGMENTOS(3)
FRAGMENTOS 3 *
Estou de férias. Ainda não entendo bem porque as pessoas ficam tão alegres quando estão de férias. Agradecem a Deus, se entusiasmam porque não levantarão cedo amanhã, não vão pegar ônibus lotado, nem engarrafamento, nem falta de estacionamento, nem falta de cadeira vazia dentro do lotação. Felizes por não ver a cara do chefe, do professor, dos colegas, dos clientes por muitos dias.
Claro que tem os que não gostam de férias. Mas aí, cada um com a sua explicação. Eu que já não entendo direito a alegria, vou entender da chateação?!
Vovô toma conta de mim. Mamãe trabalha fora. O salário dela passa longe do salário dos deputados, dos juízes, dos vereadores, dos prefeitos, dos ministros, governadores e presidente do país. Aí ela não consegue pagar alguém para cuidar de mim nas férias.
Vovô trabalha por conta própria. Mais ou menos significa que ele vive sem fazer nada até que alguém o chama para trabalhar. Não tem chefe, não tem professor, não tem colegas, nem férias. Conta que ganha mais do que mamãe. Mas a grana dele também passa léguas de distância do que ganham os deputados, dos juízes, dos vereadores, dos prefeitos, dos ministros, governadores e presidente do país.
Adoro o meu avô. Ele também me adora. Me ama, sou seu melhor amigo, vou ser seu melhor companheiro.
* Do livro ” O inevitável” , inédito.
quinta-feira, 8 de março de 2012
FRAGMENTOS (2)
FRAGMENTOS 2 *
Na rua de cima morava uma menina de olhinhos rasgados e com um sorriso mais sorriso que conheci. Sorriso doce de borboleta bocejando. Eu nunca havia visto alguém de carne e osso, de olhos tão esticadinhos e jeito tão maravilhoso de ser um ser humano.
Foi por acaso que nos conhecemos. Padre Geraldo queria conversar comigo na igreja. Coisas da missa de domingo. Eu ajudava e ele fazia questão de tudo sempre perfeito.
No meio do caminho dei de cara com a menina que vinha correndo com um embrulho nas mãos e uma pressa gigantesca dentro do peito.
- Desculpa…
- Cê num olha por onde anda, não?!
Ela abaixou para apanhar o embrulho. Roupas.
- Foi sem querer…
- …
- Sujou?
- Acho que não…
Sujou só um pouquinho. Ajudei a limpar.
- Sua mãe é costureira?
- Não. Estas roupas são dela. Eu fui buscar. Estavam um pouco largas. Mamãe pediu para apertar.
Aí encontrei os olhos dela.
- Você é do Japão?
Ela respondeu um não mudo que o tempo ouviu primeiro. Só depois eu.
Depois do susto, resolvi contar farol.
- Eu gosto de poesia…
O rostinho dela se iluminou. Ela veio para perto de mim. Quase sussurrou.
- Você gosta de ler, de escrever, ou das duas coisas?
Eu já tinha ouvido dizer que num mundo de ciências e matemáticas não existe muito espaço para poetas. Mas eu não queria que as ciências e as contas de vezes e de dividir acabassem com meu sonho ali, naquela hora. Importante era responder direito, com perfeição.
- As duas coisas…
- Você escreve poesia mesmo, que nem o Carlos Drumond, a Adélia Prado, o Antônio Barreto, o Manoel de Barros, a Cecília Meirelles, o Pablo Neruda, a Gabriela Mistral, o Mário Quintanna… ?
Ela disparou a recitar nome de gente poeta que eu nem nunca tinha ouvido falar. E de um jeito tão simples que eu tinha certeza de que não era humilhação dela para comigo. Resolvi fuçar o pensamento.
- Eu gosto do Olavo Bilac, do Fagundes Varella, do Gonçalves Dias…
- Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá…
- De quem é isso?!
- Do Gonçalves Dias! Você acabou de falar que gosta dele…
- É verdade. Eu tava só vendo se você sabe mesmo poesia…
- Poesia a gente não tem de saber só. Tem de amar e deixar que ela tome conta da gente.
- Quer ouvir um pedaço de uma poesia minha?
Ela arregalou os olhos.
- Você vai recitar uma poesia sua?!
E não é que eu ia mesmo!
* Do livro “A menina de olhinhos rasgados” – Editora Dimensão
terça-feira, 6 de março de 2012
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