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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O CÉU



O menino apanha a folha de papel em branco.Coloca sobre a mesa junto com a sua caixa de lápis coloridos. Escora a cabeça com a mão esquerda, encosta o lápis de cor azul nos lábios e pensa.

- Tá pensando?

A criança pensa em desenhar um lindo céu azul. Só o céu.

- Não tem uns passarinhos?

Não, não tem passarinhos. Os passarinhos estão num outro céu que ele desenhou outro dia.

- Céu não precisa de nuvens para a gente saber que é céu?

Céu, cada um tem o seu dentro do peito. Com nuvens ou sem elas.Nuvens são as estopas que os anjos usam para limpar as sujeiras do céu da gente. Tem céu que está tão sujo que é preciso lavar. Daí que a chuva é a água das estopas espremidas lá em cima.

- E você vai desenhar um céu desse tamanho?

O tamanho do céu do pequeno desenhista não cabe numa folha de papel.É maior que o tamanho do céu que seus olhinhos podem medir. Naquela folha vai desenhar só um pedacinho. Um pedacinho do céu, se a gente deixa entrar na nossa vida, é muito melhor que qualquer remédio.Tem paz,tem esperança,tem sonho.Deitar, então, num pedacinho desse azul derramado, deixa a pessoa molezinha e toda suspiros.

- Esse céu que você vai desenhar tem um motivo especial?

Motivo? É preciso que tudo tenha um motivo, que tudo seja explicável, explicado? Que as coisas só valem se as apresentarmos aos outros como, sei lá, um plano de uso, um manual de instruções e com um abaixo-assinado com milhões de assinaturas aprovando o que estamos ou vamos fazer?

- O que tem dentro dessa cabecinha que deixa você tão pensativo?

Ah, tem tanto,tanto de desejos,angústias,expectativas, sonhos, perguntas esperando respostas e respostas esperando perguntas.

- Não vai me contar ?

O menino rapidamente põe na folha de papel o céu pedaço de azul. Diz que está pronto. E responde que desenhou aquilo por causa do amor. Para que o amor dele  possa ir e vir naquele pedaço de céu.

- Amor?! Meu Deus, mas você é muito romântico, é um poeta!

Pronto, enquadraram o artista.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

AS DISTORÇÕES



Leio em http://br.noticias.yahoo.com/telesc%C3%B3pio-hubble-capta-gal%C3%A1xia-brilhante-descoberta-agora-211604374.html que “ o telescópio espacial Hubble obteve imagens sem precedentes da galáxia mais brilhante descoberta até agora, graças a um fenômeno conhecido como lente gravitacional”. Lente gravitacional?

A resposta vem a seguir: “Uma lente gravitacional ocorre quando a gravidade de um objeto gigantesco, como o Sol, um buraco negro ou um conjunto de galáxias, causa uma distorção no espaço-tempo. A luz procedente de objetos mais distantes e brilhantes se reflete e aumenta quando passa por essa região distorcida pela gravidade”. E daí?

Daí que, segundo a NASA, “esta observação proporciona uma oportunidade única para o estudo das propriedades físicas de uma galáxia que formava, de maneira vigorosa, estrelas quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual”.

Ainda, de acordo com a notícia “a vista que o Hubble obteve da galáxia distante é muito mais detalhada que a imagem que seria obtida sem a presença da lente gravitacional. A presença deste “amplificador” mostra como as galáxias evoluíram em dez mil milhões de anos, segundo a Nasa.Enquanto as galáxias mais próximas à Terra estão plenamente maduras e se aproximam do fim de sua história como criadouro de estrelas, as galáxias mais distantes proporcionam testemunho dos tempos de formação do universo.Estão tão distantes que a luz daqueles eventos cósmicos só alcança a Terra agora. As galáxias mais distantes não só brilham mais tênues no espaço, como também aparecem muito menores”.

Para mim, neste período de tempestades e explosões solares gigantescas, quanto mais o Hubble “vê,descobre ou confirma”, mais eu me sinto ‘escondido, inédito e incerto’. Pior: se não consigo conter as minhas distorções diárias com as quais reajo diante das intempéries(sem trocadilho) que nublam meus céus de brigadeiro ou não mudo a atitude distorcida com a qual as pessoas interpretam/ironizam minha maneira de ser, agir, pensar e sonhar, como é que eu vou conseguir entender o que são “dez milhões de anos” ou “quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual” ?

Pois se basta, por exemplo, o amor amado se afastar algumas poucas centenas de quilômetros para que as explosões do Sol sejam fichinha diante do caos e da confusão e da desorientação que se instala aqui dentro do peito e eu ficar mais perdido do que cachorro dentro do caminhão de mudança. É, dentro, escapando do armário que tomba para um lado, da geladeira que deriva, do colchão que não consegue conter o desespero de suas molas e da insanidade do motorista que só consegue parar o veículo na base do freio do motor e na ‘caixa’.

A gente navega pelo espaço das estrelas, dos bites e dos suspiros. Olhamos para cima mas não podemos afirmar que ‘lá’ é o ‘ em cima’. Afinal de contas podemos estar de ‘cabeça para baixo’ dentro desta gelatina de anis. Olhamos para os olhos do outro e não podemos garantir mais do que a felicidade deste instante. Isto quando o que queremos é a felicidade.

Entre tantas lentes e tantos lentes, nós,distorcidos ou num foco fugaz, costumamos acreditar nos nossos ‘instantes de galáxia’. No enquadramento da Ciência, milhões. No visor da Vida, milionésimos.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

NOSSOS SENTIMENTOS



No conto “ O gato preto” , de Edgar Allan Poe, num certo momento o narrador  diz: “(…)E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe a minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que nãodevia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei , simplesmente porque a compreendemos como tal?(…)O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma , de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira…(…)”.

Sem a pretensão de contrariar o narrador, recordo das ideias de Aristóteles sobre  energeia e dynamis .A primeira é o “ato”, diz respeito ao estado natural do ser, seu existir aqui e agora. A segunda, a “potência”, sinaliza o que esse ser pode ser sem deixar de sê-lo. Bernardette Siqueira Abrão, em “História da Filosofia”(Ed.Nova Cultural) exemplifica: “ A semente de uma árvore, enquanto ato, é semente, mas como potência é a árvore que dela vai germinar. As mudanças e o movimento são o modo como as potencialidades do ser vão se atualizando, passando da potência ao ato”.

Aonde eu quero chegar com isto! Aqui mesmo, onde estamos todos. Neste território ínfimo que transita aí pelo Universo. Nesta arena para a qual somos conduzidos ou nos conduzimos(por bem ou à força) e na qual vamos experienciando as mudanças de ato em potência em ato em potência, ad infinitum .
Perversidade quer dizer maldade, malignidade, ruindade. É o mesmo que barbaridade, atrocidade, crueldade, improbidade, truculência. É fazer doer no outro, consciente da proporção dessa dor. Só no outro?

A perversidade não está apenas na atitude insana e complexa. Está num simples não ou sim. Ao ser utilizada contra alguém já terá sido também eficaz contra quem a usa. E quando se toma um gostinho pela coisa…

Nos assustamos com os acontecimentos bárbaros que todo dia ouvimos ou vemos ou lemos. Não conseguimos, num instante de reflexão, compreendermos como somos capazes de cometer tamanhos desatinos. Mas nos esquecemos de que ao nosso lado uma pessoa esperava o nosso incentivo e nós fomos indiferentes ou o negamos. Quantos sonhos nós desmanchamos, quantos desejos nós proibimos , quantos gritos de liberdade nós calamos, quantas iniquidades nós incentivamos?

Daí que “o homem está condenado a ser livre”. Condenado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

“QUE A EMOÇÃO SOBREVIVA”



Na ilha de edição, convivendo com uma angústia particular – um desses redemoinhos sentimentais que rondam ao redor de nós e que costumam ser arrasadores.Procuro afastar dúvidas e preocupações pesquisando vídeos novos postados em sítios específicos.

Na ‘máquina’ lá no canto, o editor coloca  no render um trabalho que estamos finalizando. Enquanto o processo não termina, ele quer saber “qual é o próximo,velhinho”?

Na troca de ideias, decidimos, dos que estão na lista, pelo mais “urgente”. O primeiro passo é definir a trilha sonora.

Enquanto o editor abre a pasta com as trilhas arquivadas, eu volto para a pesquisa de vídeos. Escolho um pelo título e pela imagem de ilustração. Não sei por quais cargas d’água – talvez as da chuva que resolveu cair na tarde de ontemem Belo Horizonte– pedi ao meu parceiro que ‘rodasse a trilha’ que ele escolhera. 

No instante em que ele fez isto, deixei o vídeo ‘rodar’ sem o seu som original.A trilha tocando lá,o vídeo rodando aqui pareciam ter sido feitos um para o outro. Impressionante, ainda que não seja a primeira vez. Nem a última. A medida que prosseguia a ‘feliz’ coincidência, o garoto – é , o editor tem 25 anos – virou o rosto para a parede e chorou.

Que a emoção sobreviva!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

PESCARIAS



Samuel, meu neto mais velho, pescou dois peixes. Quem me dá a notícia é a mãe dele, pelo celular. Agora ela precisa cumprir a promessa de enviar as fotografias que comprovam o grande acontecimento. Ele ainda não é um Vitor Galery, um tio João, um Tio Celso, um João Arantes, um Alcides(o Pimpão). Mas está no caminho.

Daqui a pouco o menino saberá apreciar a coreografia das águas, entenderá as artimanhas dos peixes, ouvirá seu coração em dueto com o vento e conseguirá as melhores iscas nas terras da liberdade.
Um menino inicia seus rituais da infância pela cerimônia dos peixes. Um milagre que multiplica esperanças, que alimenta essa deliciosa incerteza que é viver. Samuel começa a ler as partituras das margens.

Quero ver as fotografias. Não para confirmar se é verdade. Dizem que pescador costuma ser mentiroso. Mas entre as mentiras do mundo ‘normal’ são as melhores coisas de se ouvir. E de acreditar.
Quero as fotos para ver o olhar do meu neto. E através do seu olhar me reencontrar criança ingênua dos sinuosos significados da vida.

domingo, 12 de agosto de 2012

NAS MÃOS



Domingo de sol, céu azul, almoço de frango e macarrão, ou de churrasco, ou de restaurante ou de boca livre na casa de parente ou de amigos, ou sozinho mesmo. Assim seja!

Pois vai pelo domingo, num carrinho, um casal. Não significa que exista uma relação afetiva, familiar ou de amizade entre os dois. Mas vamos tomar o viés romântico para amenizar os impactos da segunda-feira e – entre outras coisas – os pênaltis perdidos na Copa América.

De dentro do ônibus, eu vejo um casal em trajes de quem vai para um encontro mais informal. Casual básico, eu acho que assim que chamam o figurino dos dois. Camiseta, bermuda , tênis e sandália. A moça leva nas mãos, quase na altura do queixo, uma forma de vidro – que no meu tempo a gente chamava de “pirex” e que não tinha nada a ver com “pirado”- contendo, penso eu, um pudim, um manjar. Pode ser , ao contrário, um suflê, um gratinado ao molho branco.

A moça transporta a vasilha com tamanho cuidado que seus bracinhos magros se transformam nos mais poderosos e seguros amortecedores do planeta. Muito mais eficazes que os dos aviões, caminhões e modernos automóveis. Evidente que o motorista dirige com certo cuidado para não exigir um esforço maior daquele par de amortecedores de carne e osso.

A estabilidade da iguaria é uma questão de vida ou morte. Me lembro de que minha mãe comentava sobre certas comidas que não podiam “ tremer” – ou algo parecido – senão “desandavam”, “perdiam o ponto”.  Não sei se este é o caso da comida que a moça branquinha transporta quase rente  aos olhos.

Mais do que um acepipe principesco, como diz Mário de Alencar no seu “Alguns Escritos”, a moça carrega o destino do seu domingo. E, por tabela, o destino do domingo daquele que dirige o automóvel. Se o prato não entornar, chegar intacto ao seu destino, o domingo, parece, será comemorado com alegria e, cá entre nós, com uma pontinha de vaidade. Quem não quer elogios sobre seus dotes culinários. O companheiro dela, aproveitando a carona na festa, vai dizer que veio dirigindo com todo o cuidado. E ela, como toda mulher que se preza, vai retrucar: “Aí dele se derramasse um pouquinho”!

Se derramar, o domingo – e o colo, as pernas, a bermuda, as sandálias, os pés, o piso do carro vão se banhar daquela coisa branca que perderá sua condição de ‘principesca’ para se transformar numa meleca adocicada ou gordurenta. E vai sobrar para o motorista. Que vai retrucar. E ela vai devolver. Se não parar por aí, vão se digladiar com molho – ou creme – e pedaços de vidro. Vão ficar “pirex”, os dois.
O carro adianta-se. Entra na via preferencial do destino dele e de seus ocupantes. Eu, com meu destino, dentro do destino do ônibus e dos demais ocupantes, daqui a pouco esquentarei um molho e comerei com um espaguete cozido na véspera. Com direito a um copo de suco de uva e um pedaço de chocolate de sobremesa.

Cada um carrega nas mãos o prato do dia de sua vida. Num banquete, agendado por um anfitrião ao qual não somos apresentados, encontraremos outras pessoas, cada uma com seu prato especial. Nos reuniremos e a ceia deverá ser repleta de alegria e cumplicidade.

Banquetes mais particulares, aqueles em que eu levo o meu prato e você leva o seu e nos encontramos em um lugar previamente marcado, são mais complexos, mesmo  com o número reduzido de convidados. Talvez pelo fato de que tememos que derrame alguma coisa e o outro perceba. Que o paladar do outro ‘estranhe’. Ou rejeite mas finja satisfação. Que os elogios não venham na mesma proporção que acreditamos mereça o que oferecemos. Ou então, o que parece pior, o outro resolve mudar seu destino e a gente come apenas o que trouxemos.

E descobrimos que não tem o mesmo gosto. Que o tempero do outro faz  muita falta.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

AS CAVERNAS




As relações entre nós , estas que acontecem quando saímos da ‘toca’ e vamos para o campo aberto, estão cada vez mais áridas, mais ‘espinhentas’ e indiferentes.Vou deixar a convivência dentro da ‘caverna’ para um outro dia.

Hoje, dependendo da situação – ou em quase todas – parece um ‘micão’ desejar um bom dia, uma boa tarde, uma boa noite. O mesmo acontece se agradecemos, se elogiamos, se externamos nossos votos de sucesso, boa sorte e felicidade. “Tá tudo dominado, veio”!

Gestos carinhosos, atitudes de proteção e ajuda, declarações de amizade, um abraço reconfortante, um sorriso de esperança estão mais para a literatura do que para a alegria de dividir as caminhadas semelhantes.

Dizer que ama, que alguém é bonito, lindo,maravilhoso. Comentar da roupa, do cabelo, do batom, do sapato ou o carro novo  se não for interpretado como assédio sexual o será como assédio material. O negócio é ‘a pegada’ .

Agora, experimente mandar o dito para a pqp, para a “K’s house”. Tire satisfações, pergunte a razão da cara amarrada, do sentimento de que tudo é uma m….., da má vontade em fazer, em responder,em auxiliar.

Você vai descobrir que “tá tudo dominado, véio”. Dominado por uma beligerância prestes a explodir. Tem gente – e a gente também – que somos bombas armadas para detonar ao menor ruído, ao mais insignificante atrito.

É, a vida no campo aberto está cada vez mais minada por nós que damos uma fugidinha das nossas ‘catacumbas’ só para ir lá fora dar e tomar porrada. Depois a gente volta, comenta como batemos e amenizamos o quanto apanhamos. Costuma até rolar uma pancadaria dentro das ‘gaiolinhas’. Como estamos todos acostumados, até é bom para abrir o apetite.

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