quarta-feira, 17 de junho de 2009

EIS QUE É CHEGADA A HORA...


Lipovetsky afirma que vivemos um tempo hipermoderno, de hiperconsumo. Nessa vida superlativa, penso eu, acreditamos ser hiper-homens. Se hiper, que é mais que o super, a cada momento parece-nos mais inevitável a eternidade do que a morte. Ou que a morte é só para aqueles que não são hiper, ou que deixaram de seguir as normas, ou que as normas foram maiores que eles. Ou então, para lembrar Guimarães Rosa, a morte só acontece para aqueles que não são capazes de enfrentar o risco de viver. Os hiper-homens não morrem?

Morremos, hiper ou não. Questão de tempo que não é questão humana mas, outra vez o velho Rosa, “ o tempo é a vida da morte” , diz Riobaldo .

Penso que esta frase encontra uma outra semelhante contida no filme japonês “A partida” , Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro de 2009” . O roteiro é de Kundo Koyama e a direção de Yôjirô Takita, que, curiosamente, começou a carreira com os chamados 'pink films', ou seja, pornôs leves.


Se o filme tem falhas, e as tem (muito ocidentalizado, vai do drama ao dramalhão, traz muitos convencionalismos e um final previsível já na metade da exibição), também tem qualidades como as interpretações de Masahiro Motoki, no papel de Daigo e do veterano Tsutomu Yamazaki, no papel de mestre de Daigo. Contudo, o que mais incomoda é nos vermos diante da delicada tarefa de dar fim aos corpos de nossos mortos. E, neste instante, descobrirmos um ser vivo que não conhecíamos enquanto estava entre nós.

É evidente que a cultura oriental ( em especial a japonesa) tem uma relação ritualística com seus mortos diferente de nós, ocidentais. Mas mortos são mortos. E Daigo aprende com seu mestre a arte de preparar os corpos dos mortos para “ a partida”. Este é o aviso do filme, mesmo que os críticos não gostem dele( mas críticos são hiper!): vamos todos, um dia, realizar nossa partida. Inclusive os críticos de cinema.

Assim, “ o tempo é a vida da morte” e até que a nossa chegue, vamos seguindo na nossa performance canibal de matar e comer outros seres vivos, desde esperma de baiacu até o nosso semelhante( em sentido literal, ok?). Pois somos hiper( mas não somos críticos de cinema).

Vale muito assisti-lo.

Atenção, espertos!

FOTO: http://www.s9.com/images/portraits/7587_Deleuze-Gilles.jpg

“É destino da astúcia parecer ingênua demais a ingênuos sábios demais”.
(GILLES DELEUZE em “A imagem-tempo” – Ed. Brasiliense)

sábado, 6 de junho de 2009

GENTE


Estréia hoje, na TV Horizonte, canal 19 UHF, às 20:30, o programa Cidade da Gente – Série Especial Argentina. A jornalista Luciana Katahira ( que também é a roteirista e diretora do programa) viajou, sozinha, quase 6.000 quilômetros até a patagônia argentina: o “ fim do mundo”, como é carinhosamente conhecida a cidade de Ushuaia, destino final da viagem.

Até chegar lá, Katahira esteve em Buenos Aires, Bariloche, El Calafate e Puerto Madryn( ou Puerto Madryn, El Calafate). Assumindo também a responsabilidade de fazer as imagens, gravar a si mesma para as aberturas, passagens e encerramentos, além das entrevistas, ela comprova sua habilidade, talento e competência para o fazer jornalístico. Sem estrelismo, sem ser maior do que o evento a que se propôs realizar, a jornalista nos oferece um sensível e delicioso passeio pelas terras argentinas. Terra de gente culta, amável, apaixonada por sua história, por seus patrimônios.

Mais do que isso, o especial Argentina é um atestado da disposição e do amor que Luciana tem pelo programa Cidade da Gente(sem nos esquecermos de que ela também é responsável pelo programa Este bicho é o bicho, outro sucesso na grade da emissora e nos sites da internet ). O Cidade da Gente, por falta de patrocínio, vive em agonia na grade da tv, com reprises e mais reprises. O “bicho”, heroicamente, ainda resiste. Na minha humilde reflexão, o Cidade cai como uma luva para a Fiat, por exemplo.

Para concretizar esse projeto de viajar até “ o fim do mundo”, Katahira arcou com todos os custos, fez o plano de viagem, financiou passagens, comprou câmera, microfone, pediu emprestado o tripé de câmera fotográfica do pai, comprou fitas, e foi. Passou aperto por não conseguir sacar dinheiro, conseguiu resolver o problema em contatos telefônicos com seu banco no Brasil(que consumiram o resto do dinheiro que tinha). Chorou, pensando que a lente de sua câmera tinha trincado(depois descobriu que a câmera ligada estava enquadrando a janela do trem em que viajava e que era o vidro da janela que estava trincado). Comeu pouco da muita comida que lhe foi servida (principalmente el chorizo). Uma curiosidade: em castelhano, churrasco(a) quer dizer mulher de aparência muito atrativa.

Pegou uma espécie de “sarna do gelo” e ficou se coçando por muito tempo. Aprendeu em cinco minutos, num curso intensivo, “como esquiar sem cair muito”. Acreditou que tinha tudo dominado e pôs a câmera para gravar: aí, caiu!

Conheço Katahira há 10, quase 11 anos. Ela, no início de sua carreira na Tv Horizonte, foi lançada “aos leões” no primeiro dia de trabalho: fazer reportagem de rua, ao vivo, na praça 7, em Belo Horizonte. Por várias vezes, ajudou o cinegrafista a instalar o microondas, e escapou de uma chuva de ovos podres no Alto Vera Cruz. Foi literalmente chutada por um diretor da tv, durante uma transmissão ao vivo do vestibular da UFMG. Com o repórter no ar, o tal diretor quis entrar e a Katahira estava segurando a porta. Ela fez sinal para que ele esperasse e o diretor não quis nem saber e resolveu entrar. E chutou a porta e a ela. Saiu para inúmeras externas sem um tostão e ficou sem comer por mais de 12 horas. Quase morreu afogada num acidente de carro durante uma viagem de trabalho. Tempos depois, após uma cirurgia em consequência do acidente, percebendo que um dos polegares não se movia, descobriu que não haviam refeito o ligamento do mesmo. E foi obrigada a fazer outra cirurgia na mão.

Fez o Voz da Comunidade, depois passou a roteirizar/produzir/apresentar o Este bicho é o bicho(no seu primeiro programa, sobre a girafa, escreveu alguma coisa como “ no mundo da moda dos bichos, ela seria a top model ” ). A seguir, conquistou o posto de apresentadora/produtora do Cidade da Gente, além de produzir os programas Festas de Minas e Gente.

Atriz(não disputou o prêmio de Atriz Revelação pelo seu papel na peça Cães de Palha, do Oficinão do Galpão porque não era sindicalizada),conquistou dois de Melhor Atriz nos curtas Caixa Postal e O tempo ( em Pernambuco e Espírito Santo).

Mais: Katahira também é roteirista/produtora/diretora (dos especiais) do programa TVX; produz e dirige o programa Sempre um Papo para a Tv Câmara; é redatora da revista Vitrine Itambé e revisora da revista Amipão.

Ainda assim, pelo seu jeito simples de ser, pela sua educação e respeito ao próximo, pelo seu espírito de solidariedade( atributos tão afastados entre os profissionais das mídias) Katahira enfrente o desrespeito de alguns, a incredulidade de outros e a indiferença de muitos.

A razão de toda essa escritura? A felicidade de conhecer pessoas como Luciana Katahira. Maior do que muito de nós, inclusive eu.

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