terça-feira, 25 de setembro de 2012

AS DISTORÇÕES



Leio em http://br.noticias.yahoo.com/telesc%C3%B3pio-hubble-capta-gal%C3%A1xia-brilhante-descoberta-agora-211604374.html que “ o telescópio espacial Hubble obteve imagens sem precedentes da galáxia mais brilhante descoberta até agora, graças a um fenômeno conhecido como lente gravitacional”. Lente gravitacional?

A resposta vem a seguir: “Uma lente gravitacional ocorre quando a gravidade de um objeto gigantesco, como o Sol, um buraco negro ou um conjunto de galáxias, causa uma distorção no espaço-tempo. A luz procedente de objetos mais distantes e brilhantes se reflete e aumenta quando passa por essa região distorcida pela gravidade”. E daí?

Daí que, segundo a NASA, “esta observação proporciona uma oportunidade única para o estudo das propriedades físicas de uma galáxia que formava, de maneira vigorosa, estrelas quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual”.

Ainda, de acordo com a notícia “a vista que o Hubble obteve da galáxia distante é muito mais detalhada que a imagem que seria obtida sem a presença da lente gravitacional. A presença deste “amplificador” mostra como as galáxias evoluíram em dez mil milhões de anos, segundo a Nasa.Enquanto as galáxias mais próximas à Terra estão plenamente maduras e se aproximam do fim de sua história como criadouro de estrelas, as galáxias mais distantes proporcionam testemunho dos tempos de formação do universo.Estão tão distantes que a luz daqueles eventos cósmicos só alcança a Terra agora. As galáxias mais distantes não só brilham mais tênues no espaço, como também aparecem muito menores”.

Para mim, neste período de tempestades e explosões solares gigantescas, quanto mais o Hubble “vê,descobre ou confirma”, mais eu me sinto ‘escondido, inédito e incerto’. Pior: se não consigo conter as minhas distorções diárias com as quais reajo diante das intempéries(sem trocadilho) que nublam meus céus de brigadeiro ou não mudo a atitude distorcida com a qual as pessoas interpretam/ironizam minha maneira de ser, agir, pensar e sonhar, como é que eu vou conseguir entender o que são “dez milhões de anos” ou “quando o universo tinha apenas um terço de sua idade atual” ?

Pois se basta, por exemplo, o amor amado se afastar algumas poucas centenas de quilômetros para que as explosões do Sol sejam fichinha diante do caos e da confusão e da desorientação que se instala aqui dentro do peito e eu ficar mais perdido do que cachorro dentro do caminhão de mudança. É, dentro, escapando do armário que tomba para um lado, da geladeira que deriva, do colchão que não consegue conter o desespero de suas molas e da insanidade do motorista que só consegue parar o veículo na base do freio do motor e na ‘caixa’.

A gente navega pelo espaço das estrelas, dos bites e dos suspiros. Olhamos para cima mas não podemos afirmar que ‘lá’ é o ‘ em cima’. Afinal de contas podemos estar de ‘cabeça para baixo’ dentro desta gelatina de anis. Olhamos para os olhos do outro e não podemos garantir mais do que a felicidade deste instante. Isto quando o que queremos é a felicidade.

Entre tantas lentes e tantos lentes, nós,distorcidos ou num foco fugaz, costumamos acreditar nos nossos ‘instantes de galáxia’. No enquadramento da Ciência, milhões. No visor da Vida, milionésimos.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

NOSSOS SENTIMENTOS



No conto “ O gato preto” , de Edgar Allan Poe, num certo momento o narrador  diz: “(…)E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe a minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que nãodevia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei , simplesmente porque a compreendemos como tal?(…)O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma , de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira…(…)”.

Sem a pretensão de contrariar o narrador, recordo das ideias de Aristóteles sobre  energeia e dynamis .A primeira é o “ato”, diz respeito ao estado natural do ser, seu existir aqui e agora. A segunda, a “potência”, sinaliza o que esse ser pode ser sem deixar de sê-lo. Bernardette Siqueira Abrão, em “História da Filosofia”(Ed.Nova Cultural) exemplifica: “ A semente de uma árvore, enquanto ato, é semente, mas como potência é a árvore que dela vai germinar. As mudanças e o movimento são o modo como as potencialidades do ser vão se atualizando, passando da potência ao ato”.

Aonde eu quero chegar com isto! Aqui mesmo, onde estamos todos. Neste território ínfimo que transita aí pelo Universo. Nesta arena para a qual somos conduzidos ou nos conduzimos(por bem ou à força) e na qual vamos experienciando as mudanças de ato em potência em ato em potência, ad infinitum .
Perversidade quer dizer maldade, malignidade, ruindade. É o mesmo que barbaridade, atrocidade, crueldade, improbidade, truculência. É fazer doer no outro, consciente da proporção dessa dor. Só no outro?

A perversidade não está apenas na atitude insana e complexa. Está num simples não ou sim. Ao ser utilizada contra alguém já terá sido também eficaz contra quem a usa. E quando se toma um gostinho pela coisa…

Nos assustamos com os acontecimentos bárbaros que todo dia ouvimos ou vemos ou lemos. Não conseguimos, num instante de reflexão, compreendermos como somos capazes de cometer tamanhos desatinos. Mas nos esquecemos de que ao nosso lado uma pessoa esperava o nosso incentivo e nós fomos indiferentes ou o negamos. Quantos sonhos nós desmanchamos, quantos desejos nós proibimos , quantos gritos de liberdade nós calamos, quantas iniquidades nós incentivamos?

Daí que “o homem está condenado a ser livre”. Condenado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

“QUE A EMOÇÃO SOBREVIVA”



Na ilha de edição, convivendo com uma angústia particular – um desses redemoinhos sentimentais que rondam ao redor de nós e que costumam ser arrasadores.Procuro afastar dúvidas e preocupações pesquisando vídeos novos postados em sítios específicos.

Na ‘máquina’ lá no canto, o editor coloca  no render um trabalho que estamos finalizando. Enquanto o processo não termina, ele quer saber “qual é o próximo,velhinho”?

Na troca de ideias, decidimos, dos que estão na lista, pelo mais “urgente”. O primeiro passo é definir a trilha sonora.

Enquanto o editor abre a pasta com as trilhas arquivadas, eu volto para a pesquisa de vídeos. Escolho um pelo título e pela imagem de ilustração. Não sei por quais cargas d’água – talvez as da chuva que resolveu cair na tarde de ontemem Belo Horizonte– pedi ao meu parceiro que ‘rodasse a trilha’ que ele escolhera. 

No instante em que ele fez isto, deixei o vídeo ‘rodar’ sem o seu som original.A trilha tocando lá,o vídeo rodando aqui pareciam ter sido feitos um para o outro. Impressionante, ainda que não seja a primeira vez. Nem a última. A medida que prosseguia a ‘feliz’ coincidência, o garoto – é , o editor tem 25 anos – virou o rosto para a parede e chorou.

Que a emoção sobreviva!

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